terça-feira, 4 de outubro de 2016

O arrocho do presente após a ilusão brasileira do pretérito mais-que-perfeito


Por Eduardo Müller Saboia, M Sc.
“O pulso ainda pulsa”. O verso da música “O Pulso” da banda Titãs atualmente mereceria um ponto de interrogação no final. Em plena semana de eleições municipais, para prefeitos e vereadores, foram confirmadas tendências de indicadores que se degradam a cada dia. O país piorou novamente em rendimento educacional, em produtividade, teve aumento na taxa de desemprego, piora do percentual da dívida pública sobre o PIB e a queda nos rendimentos dos trabalhadores frente ao mesmo período do ano passado foi novamente confirmada. As contas de 2017 começam a chegar com reajustes acima de 10% e mesmo assim sindicatos realizam paralisações míopes, como se o país e as empresas em geral nadassem de braçada, exigindo aumentos salariais, manutenção dos empregos e melhora da economia. Fácil, não? Para se ter tudo isso basta queimar pneus nas rodovias ou fechar as portas que tudo se resolverá.

O Brasil está diferente e talvez alguns setores ou pessoas ainda não tenham percebido. A palavra crise em mandarim é formada por duas letras, uma traz o sentido de perigo, e a outra de oportunidade. Parte das empresas e profissionais entenderam muito bem isso e aproveitaram a crise para amadurecer, para cortar custos, para direcionar melhor os investimentos e o caro dinheiro por vezes disponível no mercado. Para cortar custos e para estarem protegidos de crises e ameaças de greves que já fazem parte do calendário sindical, tendo ou não problemas, empresas se utilizam de modelos cada vez mais digitais, usam e abusam da inteligência artificial de programas computacionais, substituem os que reivindicam pelos que são mais amigáveis, pelos que não contestam e custam menos. Aproveitaram para revisar suas estruturas e inovar em produtos e processos.

Há tempos os aplicativos e caixas eletrônicos substituem integralmente o caixa e o gerente do banco. Este é apenas um exemplo, existem inúmeros nas mais diferentes profissões. E mesmo assim insiste-se somente em não abrir as agências pleiteando coisas do século passado, ao invés de se reinventarem em um setor que mudou drasticamente nos últimos anos. E poucos estão sentindo realmente falta das tradicionais agências ou do cafezinho com o gerente que só lembra de você de tempos em tempos, geralmente quando precisa alcançar uma meta, no final do mês.

Montadoras estão cada vez mais migrando para os países asiáticos, com mão-de-obra mais barata e mais preparada. Com custos elevadíssimos e mão-de-obra cara e por vezes despreparada, não há porque resistir. Até porque trazer um container da China para o Brasil é mais barato que um serviço de motoboy de Sorocaba à Campinas, distantes em míseros 85,8 km. Convites elaborados em aplicativos e enviados pelo WhatsApp estão substituindo a indústria de confecção de convites para festas! Inúmeros os exemplos de que o mundo mudou!

Fato é que, infelizmente, os rendimentos dos profissionais brasileiros vêm caindo. Seja na indústria, em serviços, na saúde, no agronegócio, em qualquer setor. Com uma taxa de desemprego beirando os 12%, com perspectiva de piora até o final do primeiro trimestre do próximo ano, não há o que comemorar e há muito com o que se preocupar. E o desemprego ainda não atingiu o serviço público. Quando isso ocorrer, serão milhares de pessoas no mercado procurando emprego na iniciativa privada, enfraquecida. A renda tem caído mês após mês e já está quase 5% menor que no ano passado, fruto da redução na atividade econômica.

A mão-de-obra está sendo substituída e será ainda mais. Se os profissionais e os mais de 15.000 sindicados não se reinventarem e continuarem a bater na mesma tecla, “empresário burguês é desonesto e deve bancar o pobre e honesto trabalhador”, não terão mais a quem protestar e o que reivindicar. Eles simplesmente continuarão a ir embora do país.

Os índices da economia estão ruins? Sim, estão. As taxas de desemprego estão elevadas? Sim, estão. Os salários estão ficando mais baixos? Sim. O brasileiro produz pouco se comparado a outros 180 países? sim. Nosso nível de educação é péssimo? Sim, o pior em décadas. Você está fazendo algo diferente para mudar a situação? Uns dirão que sim, outros que não. 

E ao protestar contra um banco digital, bloquear uma estrada com pneus queimados, ao impedir a entrada de profissionais nas empresas espera-se que a economia melhore? Espera-se que os bancos voltem a ter milhares de caixas e filas de espera, àquelas vistas na hora dos almoços de antigamente? Espera-se que os bancos realmente distribuam seus lucros? Acredita-se que os custos dos fretes caiam pela metade?

Enquanto aqui se tenta brigar e enfraquecer o “sistema” (esta eu acho ótima!), em outros países se faz mais educação, se gera mais PIB, há menos “mimimi” e mais produtividade. Fazem mais com menos, melhor e mais barato. A culpa é do “sistema” ou de quem participa dele? Os brasileiros terão melhores rendimentos quando provarem que produzem, sistematicamente, mais que os outros.Continua-se a colher o que insistentemente se planta neste país. Desculpas e protecionismo, baseados em regras, leis e procedimentos mal elaboradas e ineficientes.

Fica a reflexão!

terça-feira, 6 de setembro de 2016

O Brasil perderá novamente a oportunidade de ser um gigante?


Por Eduardo Müller Saboia, MSc

Na Rio 2016 o Brasil teve a oportunidade de mostrar para mais de 4 bilhões de habitantes a sua cultura, sua natureza exuberante e única, sua força de realização mesmo em situações adversas, a alegria de sorrir em face de problemas e a vontade de chorar diante da beleza. Somos assim, difíceis de compreender, profissionais do “jeitinho” e de um improviso que chega a dar frio na barriga. Realizamos com poucos recursos e por muitas vezes realizamos pouco. Mas somos únicos, sentimos “saudade”, que povo nenhum pode expressar por não existir esta deliciosa palavra em outros idiomas. Um sonho intenso, um amor eterno, mas que por vezes fica deitado eternamente em berço esplêndido esperando que milagres aconteçam.
O brasileiro tem orgulho em dizer que alimenta o mundo. O Brasil é o primeiro em produção e exportação de açúcar, café e suco de laranja. É o primeiro em exportação e é o segundo em produção de soja, carne bovina, tabaco e carne de frango. Segundo em exportação e terceiro em produção de etanol e milho. Quarto em carnes de peru e suínos. No geral, é o quarto maior exportador mundial. O Agro representa 21% do PIB e 46% da balança comercial. 7% do mercado mundial do Agro é brasileiro. Também emprega 35% da mão-de-obra brasileira mesmo preservando 61% do seu território. Um orgulho imenso. Potencial que não acaba mais.
Mas nem tudo é “Agro-ostentação”, algo pode estar errado. O Brasil não é competitivo em 58% dos produtos agrícolas comercializados. E não é em produtos que deveria nadar de braçada pela exuberância e variedade que tem em seu território: pescados, frutas, bebidas, cereais e farinhas, produtos oleaginosos (exclui-se soja), hortícolas, leguminosas, raízes e tubérculos, além de lácteos. Em todas estas variedades, o Brasil tem menos de 1% de participação do mercado mundial. Que pena! Rios e faixa litorânea, terras, recursos hídricos para irrigação e clima adequado temos de sobra em todas as regiões do norte ao sul, do leste ao oeste.
Há um potencial enorme de crescimento em todos estes segmentos, tanto nos que já vamos bem quanto nos que ainda patinamos. O mundo precisará de muito mais alimentos. Estima-se que em 2050 serão mais de 9 bilhões de habitantes. Ao considerar os meios atuais de produção, o Brasil é o único país a ter todas as condições para fazer frente a esta demanda: recursos hídricos, relevo, área de expansão suficiente e temperatura ideal. Mas o jogo não está ganho, há muito trabalho a ser feito. E se alguns entraves não forem eliminados, o país perderá novamente a grande e talvez única chance de prosperar e de se tornar líder mundial em produção e beneficiamento de alimentos.
O Brasil peca ao fazer poucos acordos comerciais com outros blocos e países. O comércio entre blocos antes representava 20%, hoje representa 40% do comércio de alimentos. Quem estiver fora terá muitas dificuldades de se tornar competitivo.
O Brasil peca ao permitir que o Censo Agropecuário seja postergado e postergado por “falta” de recursos para realiza-lo. O Agro brasileiro mudou muito nos últimos dez anos. A falta de um censo faz com que as políticas públicas de incentivo sejam aplicadas de maneira errada.
O Brasil peca por ser negligente, relapso, irresponsável e ineficiente com a sua logística. É capaz de achar normal que 30% dos grãos plantados e colhidos sejam perdidos em armazéns mal conservados ou em transportes de má qualidade, tanto em modal ferroviário, fluvial e rodoviário.
O Brasil peca por não regulamentar as regras e leis que precisam ser definidas para que os produtores possam trabalhar com menos recursos, mais segurança e de forma sustentável. Por vezes, detém a tecnologia, mas ela não funciona por falta de regulamentação.
O Brasil peca por ser tímido em iniciativas de sustentabilidade. Mesmo que algumas empresas como EMPRAPA estejam fazendo excelentes trabalhos neste sentido, falta vontade política para massificar as vertentes tecnológicas essenciais para o Agro do futuro próximo: biologia sintética, nanotecnologia, ômicas, robótica, agricultura de precisão e também a agricultura vertical.
O Brasil peca por não priorizar a discussão, em todas as esferas da sociedade, da quarta revolução industrial que chegou para ficar. É preciso priorizar, antes que não dê mais tempo, o desenvolvimento e a implantação massiva das tecnologias desruptivas, como o uso no Agro de veículos autônomos, inteligência artificial e robótica, redes de internet móveis no campo que funcionem adequadamente, computação em nuvem que permita o processamento de uma quantidade enorme de dados (big data) e o uso de drones e energias renováveis. Sem isso, sem logística competitiva e sem acordos comerciais favoráveis, o Brasil possivelmente perderá a chance de se tornar o principal player da indústria do Agro, e não será mais a única nação com potencial de suprir a demanda por alimentos do mundo.

Estamos preparados? No Agro não existe o “jeitinho”, só para lembrar...

Fica a reflexão!

terça-feira, 16 de agosto de 2016

Está inconformado com os resultados dos atletas brasileiros na Rio 2016? ...já mediu o SEU índice de produtividade hoje?

Por Eduardo Müller Saboia, MSc.
Não é de hoje que os atletas brasileiros precisam dar explicações a repórteres ao final de cada prova olímpica. A falta de conhecimento da população e dos próprios repórteres, sobre cada modalidade traz ainda mais inconformismo pela aparente falta de resultados satisfatórios. Critica-se pelo investimento feito, pela falta de incentivo e trabalho nas categorias de base, a falta de estrutura e o desperdício de tantos talentos espalhados pelo nosso exuberante território. O técnico ruim, não se dedicou, não têm preparo psicológico, etc. A cada Olimpíada a mesma história, o mesmo despreparo de quem está na posição de julgar aqueles que defendem o país.
Se não for medalha de ouro, não serve. Se for prata, “foi por tão pouco”, se foi bronze, “coitado”. Quarto lugar então, “um azarado”. A produtividade do atleta brasileiro não está diferente da minha, da sua, da nossa, enquanto profissionais. Não vou nem comentar como atletas que NÃO somos, já que mais da metade dos adolescentes e adultos estão acima do peso e muito perto de problemas cardíacos e diabetes. Nós, profissionais brasileiros, com resultados cinco vezes piores que os norte-americanos e europeus em produtividade, estamos exigindo o que dos atletas brasileiros? Que eles façam o que não temos capacidade de fazer? Com que moral se critica um atleta olímpico se precisamos de cinco dias para produzir o que um norte-americano faz em um? Desculpem, mas precisamos de um espelho para refletir sobre as verdadeiras causas de tudo isso. O problema é muito maior e reflete o que temos focado para nós mesmos.
Ok, se a comparação com os norte-americanos e europeus não é justa, já que são países de primeiro mundo, vamos comparar o nosso desempenho com nossos vizinhos Colômbia, Chile e Peru, ou mesmo com os emergentes Índia, África do Sul e Rússia. A nossa competitividade está abaixo destes seis países. Aliás, pelo último ranking divulgado em maio, somos apenas mais produtivos que Croácia, Ucrânia, Mongólia e Venezuela. É, estamos bem piores que os nossos atletas. Isso vale para a nossa indústria, serviços, saúde e com todo respeito, também aos milhões de profissionais servidores públicos.
Em outra pesquisa, divulgada no livro de Gary Hamel, “O que Importa Agora – como construir empresas à prova de fracassos”, de 90 mil trabalhadores pesquisados, somente 21% dos empregados pesquisados estavam realmente engajados no trabalho, no sentido de que “fariam aquele esforço extra” pelos empregadores. Outros 38% estavam em grande parte ou totalmente desengajados, enquanto o restante se enquadrava num tépido meio-termo. Estes dados são relativos aos profissionais de 18 países, incluindo o Brasil.
                E o que está por trás disso? Historicamente aceitamos uma educação de má qualidade, baixo investimento em ciência e pesquisa. Enquanto a maioria dos países já descobriu há anos que investimentos nestas áreas determinam o futuro, nós estamos preocupados com ter ou não carros oficiais, cargos e mais cargos, com o poder sem ser, com as regalias e foros privilegiados, com as novelas globais e se deveria ou não ter a “Voz do Brasil” todo santo dia no rádio às 19h00, ou mesmo se os atletas bateram ou não continência no pódio (que diferença isso faz?). Acreditamos que “na hora damos um jeito”. Jeito? Quando se faz da mesma maneira, não há com obter resultados diferentes.
                Coincidência ou não, um dos setores com maior investimento em pesquisa no país, o do Agronegócio, nada de braçada: somos ouro, prata e bronze em várias categorias! Seja um agricultor e “tente dar um jeito na hora”, veja o que acontece...
                E você, está sendo produtivo e competitivo neste momento? Fica a reflexão.
Por curiosidade, abaixo a lista dos países e a colocação no ranking de produtividade segundo a EXAME.COM:
  1. Hong Kong (China)
  2. Suíça
  3. Estados Unidos
  4. Cingapura
  5. Suécia
  6. Dinamarca
  7. Irlanda
  8. Holanda
  9. Noruega
  10. Canadá
  11. Luxemburgo
  12. Alemanha
  13. Qatar
  14. Taiwan
  15. Emirados Árabes
  16. Nova Zelândia
  17. Austrália
  18. Reino Unido
  19. Malásia
  20. Finlândia
  21. Israel
  22. Bélgica
  23. Islândia
  24. Áustria
  25. China
  26. Japão
  27. República Tcheca
  28. Tailândia
  29. Coreia do Sul
  30. Lituânia
  31. Estônia
  32. França
  33. Polônia
  34. Espanha
  35. Itália
  36. Chile
  37. Letônia
  38. Turquia
  39. Portugal
  40. Eslováquia
  41. Índia
  42. Filipinas
  43. Eslovênia
  44. Rússia
  45. México
  46. Hungria
  47. Cazaquistão
  48. Indonésia
  49. Romênia
  50. Bulgária
  51. Colômbia
  52. África do Sul
  53. Jordânia
  54. Peru
  55. Argentina
  56. Grécia
  57. Brasil
  58. Croácia
  59. Ucrânia
  60. Mongólia
  61. Venezuela

quarta-feira, 13 de julho de 2016

Proibido parar e estacionar: o desassossego de quem trabalha com Demand Planning nos momentos de instabilidade.



Por Eduardo Müller Saboia, MSc.

Fernando Pessoa, no seu “Livro do desassossego” escreveu: “Vivo sempre no presente. O futuro, não o conheço. O passado, já não o tenho”. Mas os profissionais que trabalham diariamente com o Planejamento da Demanda, ou Demand Planning, em empresas de todos os portes e setores, não podem dar-se ao luxo de menosprezar ou desprezar quaisquer que sejam os fatos ou pistas, de qualquer momento ocorrido no passado, que está no presente ou que aponte para o futuro.

Tenho afirmado em meus artigos que os profissionais precisam e devem utilizar de todos os meios necessários para tentar chegar mais perto do que pode ser o futuro. Devem olhar para trás, para os lados e para frente. Consultar todas as bases possíveis de conhecimento para poderem formular os melhores cenários. Fato é: dificilmente conseguirão elaborar propostas e planos que traduzam com exatidão o futuro, por melhores que sejam os modelos utilizados. Basta que se cruzem alguns planos traçados no passado com o que realmente aconteceu e poderá verificar que ainda hoje existem muitos desvios. A magia em se fazer negócios ainda está nisso, não saber como será o futuro e fazer de tudo para tentar advinha-lo ou construí-lo.

Cito aqui dez importantes estratégias para se obter um Planejamento da Demanda eficaz, segundo a revista Industry Week, por meio de artigo publicado de Dave Blanchard:

Definir o melhor e mais adequado processo_

O Planejamento da Demanda é um sub-processo dentro do Planejamento de Vendas e Operações (S&OP) ou Planejamento de Negócios Integrados, não uma atividade independente. Deve permitir a criação de um plano de negócios integrado, capaz de envolver toda a empresa e conduzir o negócio para o atendimento da demanda do cliente e da rentabilidade sustentável da empresa. Essencial definir quem decide e o que, quem participa, quando, como e por que.

Decidir em que nível o planejamento deverá ser trabalhado_

Algumas empresas analisam e planejam a demanda analisando a família de produtos, nível cliente ou geográfico. A maneira como você procura prever e planejar é exclusivo para o seu negócio. Não seja escravo de limitações de tecnologia de informação (ERPs, por exemplo), a sua necessidade de prever e o seu processo são fatores que devem ditar as regras para TI, que deve ser adaptada. Não crie modelos inflexíveis, você deve estar preparado para mudar a forma como você planeja a demanda de acordo com mudanças em seu negócio.

Saber que Demand Planning é um processo colaborativo, não um teste de algoritmo_

As estatísticas fornecem uma base sólida para trabalhar, mas o valor real vem do conhecimento adquirido e dos fatores internos e externos que contextualizam todo o negócio. Geralmente estes fenômenos os modelos estatísticos não conseguem mapear. Implantar a colaboração interna antes de colaboração externa é reconhecer que, quanto mais perto se chega da realidade, de informações do campo, mais assertivo será o planejamento da demanda e melhores serão os resultados de toda a organização.

Saber que Demand Planning não é somente Previsão_

A previsão é um componente do Planejamento da Demanda e se relaciona com a sua melhor estimativa de demanda futura. Empresas que entendem este fenômeno acabam sendo desafiadas pela previsão (e o plano de negócios integrado) e buscam oportunidades para influenciar a demanda. Isto ocorre por meio de eventos de marketing e promoções que trazer a previsão mais em linha com o plano da empresa. Busca-se o resultado. Nietzsche acreditava que "o futuro influencia o presente assim como o passado.” Uma coisa é olhar para o passado para encontrar problemas que podem e devem ser resolvidos. Mas é outra bem diferente é desenvolver um plano para corrigi-los e resolvê-los.
Saber que você não pode controlar o que não se pode medir_
Defina claramente os indicadores chave para o seu processo e constantemente os atualize com os novos dados que estão sendo planejados. Isto o ajudará a verificar se a estratégia realmente é a mais correta.

Capacitar as pessoas antes de Planejar_

Como o processo de planejamento de demanda é multifuncional, muitas pessoas que trabalham com o Planejamento da Demanda não conseguem ter a real dimensão da contribuição que podem dar para a empresa. Como resultado, a qualidade de suas contribuições pode diminuir. Um bom programa de capacitação multifuncional vai ajudar todos a compreenderem sua real contribuição e impacto sobre o desempenho do plano de demanda.

Clarificar os dados_

Serve para que você não gaste todo o seu tempo questionando o processo e perdendo a confiança nele. As etapas e resultados precisam ser claros, não podem restar dúvidas, o que seria um terreno fértil para os outros criticarem ou mesmo fazerem uso errado do plano. O planejamento de demanda lida com grandes quantidades de dados e processos robustos são obrigados a manter os dados limpos.

Acreditar nos números e questionar as exceções_

80% do seu retorno será feito mediante a análise de 20% dos itens. Não tente controlar tudo, dificilmente conseguirá, e mesmo que o faça, não há tanto valor agregado. Invista no processo, torne-o robusto, para poder diminuir o controle.

Usar erros de previsão para lições positivas_

Uma boa previsão estatística terá uma margem de erro adequada, que aponta para um objetivo com a segurança adequada. Isto levará a uma boa gestão de estoque e proporcionará melhores resultados e inventário total inferior.

Desenvolver um processo que possa ser comprovado com resultados_

Um estudo recente mostra que as empresas que se destacam na gestão da demanda – com graus de precisão mais elevados nas previsões - têm estoques menores. Isto garante resultados financeiros mais sustentáveis e traz uma organização maior dentro da empresa.

Estes dez itens estratégicos podem auxiliá-lo a ter um Planejamento de Demanda melhor e mais confiável. Um bom planejamento não acontece por acaso. Trabalho árduo e constante é necessário. Fernando Pessoa já dizia: “Agir, eis a inteligência verdadeira. Serei o que quiser. Mas tenho que querer o que for. O êxito está em ter êxito, e não em ter condições de êxito. Condições de palácio tem qualquer terra larga, mas onde estará o palácio se não o fizerem ali?”

E em momentos de variações de mercado, como vividos na América Latina constantemente, resta a missão do desassossego e da vigilância constante. Em Planejamento da Demanda, não está previsto em código o direito de parar e estacionar.


Fica a reflexão

domingo, 26 de junho de 2016

O mundo mudou, definitivamente. Os modelos tradicionais que funcionaram por décadas estão enfraquecidos e se reinventando. Como devem atuar os profissionais de Inteligência de Mercado e de Planejamento da Demanda em face à tantas mudanças em tão pouco tempo? Participe do CONAGEQ, 1º Congresso Nacional de Gestão da Qualidade, de 18 a 22/07 e confira profissionais do meio acadêmico e empresarial. Serão diversas palestras e minha contribuição será dia 22/07 às 16h00, on-line, de forma gratuita! Basta se inscrever no site e se conectar! Participe! Em meio à crise nada melhor do que se capacitar! Divulgue e compartilhe com todos os seus contatos! Não percam! Http://conageq.com.br/eduardo

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

A Casa da Palavra do povo Dogon: onde a sabedoria fala e a modernidade se cala.


Vinicius de Moraes diria: "Era uma casa, muito engraçada, não tinha teto, não tinha nada. Ninguém podia entrar nela não, porque na casa não tinha chão!". Outros tantos críticos modernos a chamariam de "casebre", "barraco" ou "buraco". Outros ainda complementariam ao chamar de suja, insegura e inútil. Como é perfeita e cruel a ignorância da humanidade moderna.
A "Casa da Palavra", ou Toguna de Indé (francês) poderia ser classificada, na minha humilde opinião, como uma das mais modernas e revolucionárias ferramentas de gestão. Isto mesmo. É simplesmente um local onde as pessoas discutem assuntos de interesse comum, seguindo regras claras. Uma espécie de espaço para reuniões, muito mais eficiente dos que comumente são encontrados nas empresas modernas do século XXI.
Se tivesse sido criada nos Estados Unidos, seria um best seller, daqueles de Hamel & Prahalad, Kaplan e Norton ou mesmo Peter Drucker. Mas não foi, infelizmente. São de autoria dos Dogon, um dos povos mais "primitivos" da humanidade, detentores de um conhecimento notório sobre astrologia, especialmente sobre a constelação Syrius. Astrólogos têm comprovado a existência de estrelas nesta constelação que já eram de conhecimento deste povo "primitivo" há séculos, só para se ter ideia. Mas por serem extremamente pobres e por preservarem hábitos de seus ancestrais, são considerados como não evoluídos, praticamente primitivos. Pode-se fazer um paralelo com o que se pensa de muitos indígenas que vivem em tribos no interior do nosso Brasil, mas em potências de dez ou de cem.
Os Dogon vivem no interior da África Ocidental, mais precisamente em Mali e Burkina Faso, países onde mais de 99% da população vive na extrema pobreza, com menos de um dólar por dia. Por serem pobres e não possuírem celulares, wi-fi, whatsapp e e-mails, eles simplesmente conversam. Seus costumes têm sido transmitidos de geração para geração por meio da palavra, e nenhum registro escrito que conte a história foi encontrado por lá até hoje. Para os Dogon, a palavra vale bem mais que a escrita!
Mas para que esta comunicação ocorra de modo eficiente, eles devem respeitar regras claras e principalmente o conhecimento e a experiência dos mais idosos.
E tudo acontece nas Togunas, ou Casa da Palavra. Lugar público, geralmente situado no centro de cada vilarejo. São construídas a partir de oito pilares que sustentam um teto que fica a um metro e vinte centímetros do chão, de modo a forçar com que todos que estejam dentro dela fiquem sentados. Se a discussão sobre algum tema estiver mais acalorada e os ânimos se exaltarem, não há como se levantar para se impor sobre o outro, nem há espaço para abandonar a discussão e sair. Esta limitação física encoraja a todos a terem uma conversa respeitosa e objetiva, assim como a iniciar e concluir um tema, fato que não acontece nas inúmeras reuniões que acontecem todos os dias. 
São utilizadas pelos anciãos das aldeias para a discutir os problemas da comunidade, mas também podem servir como um local de direito consuetudinário e de tomada de decisões.
As pessoas que frequentam as "Togunas" devem usar gorros com tampões nas orelhas, que enquanto o assunto é exposto, ficam levantadas, simbolizando que estão escutando. Quando os anciãos dão suas palavras de aconselhamento ou comunicam a decisão, os mais jovens devem obrigatoriamente abaixar um dos tampões, simbolizando que as sábias palavras entrarão por um dos ouvidos e não sairão pelo outro. Evitam assim a antiga expressão: "entrou por uma orelha e saiu pela outra". É a sabedoria sendo repassada de geração para outra, em um ritual simples.
Agora para refletir: de quantas reuniões em salas super equipadas você já participou por horas e nada extraiu de útil? De quantas reuniões já participou sem sequer saber direito o tema? Quantas com profissionais extremamente exaltados buscando sempre a razão? Confesso que eu mesmo já me exaltei algumas vezes. Quantas reuniões sem conclusão alguma? Em quantas presenciou todos os participantes concordando com a cabeça e depois do término, cochichando pelos corredores? Em quantas reuniões você deveria ter usado um gorro como os utilizados pelos Dogon e preferiu não prestar atenção, por estar atento aos e-mails que entravam no seu celular?
Será que as modernas empresas e seus colaboradores, graduadíssimos, não deveriam reconsiderar os métodos que vêem utilizando para se comunicarem e para discutirem assuntos relevantes e de interesse da organização? Será que não deveriam reconsiderar o uso de tanta tecnologia, pelo menos para situações nas quais a comunicação face-to-face é possível?
Há pouca eficiência, por vezes, nas casas que não são nada engraçadas, que têm tetos e têm tudo. Tudo, menos entendimento, respeito e comunicação de fato.
Quem é primitivo mesmo? Fica a reflexão!

Eduardo Müller Saboia é Técnico e Engenheiro Industrial Mecânico, Pós-graduado em Gestão Industrial e Mestre em Administração Estratégica. Atua na Indústria de Maquinários Agrícolas como gerente de Demand Planning para a América Latina, segmento Agrícola. Escreve frequentemente no LinkedIn e no blog pessoal “focus on org” (http://www.focusonorg.blogspot.com). Filho, esposo e pai e triatleta amador.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

Quais as novas responsabilidades das organizações?





Por Eduardo Müller Saboia, MSc.

O que mais lhe atrai em um espetáculo musical? A capacidade técnica dos músicos, a acústica do local, a liderança do regente com seus movimentos inconfundíveis, desconcertantes e enigmáticos ou o conjunto da obra? O que lhe faz cair o queixo e pensar: meu Deus, isso é incrível! Como eles fazem isso? Que orquestra fantástica!

Agora pense na empresa onde trabalhou ou trabalha, ou que lhe é fornecedora. Ou ainda, naquela que é cliente ou que já ouviu falar ou leu em uma revista. O que a torna atraente? São os títulos e habilidades de seus executivos e colaboradores, seus produtos repletos de tecnologias e de qualidade? É o atendimento prestado pelos Revendedores, a agilidade na reposição de uma peça? É o prato bem elaborado e na temperatura certa, a cordialidade dos garçons, a limpeza?  O que lhe faz cair o queixo e pensar: meu Deus, eles são incríveis! Como eles conseguem fazer isso? Que empresa fantástica!

O que lhe atrai? Alguma coisa ainda lhe atrai com tantas empresas similares, com tantos produtos e preços semelhantes, com tantas facilidades e ofertas? Provavelmente o resultado de Concertos lhe atraia mais que do que de uma empresa, pois ainda não se tornaram commodities. Ainda possuem um “Q” a mais que encanta, diferencia e os tornam especiais.

Empresas e algumas instituições religiosas seculares perdem força diariamente por fazerem uso de modelos de administração ultrapassados. Produzir para vender e gerar mais receita, por si só, já não encanta os consumidores. Assim como os rituais religiosos que seguem a mesma retórica há séculos também já não prendem a atenção dos fiéis. O mundo mudou, e os modelos tradicionais, mesmo que importantíssimos para todos, precisam acompanhar esta evolução.

O modelo atual de administração perde força a cada dia. Gary Hamel, em seu livro “O que Importa Agora – como construir empresas à prova de fracassos”, cita que em uma pesquisa realizada com 90 mil trabalhadores em 18 países (inclusive o Brasil), somente 21% dos empregados pesquisados estavam realmente engajados no trabalho, no sentido de que “fariam aquele esforço extra” pelos empregadores. Outros 38% estavam em grande parte ou totalmente desengajados, enquanto o restante se enquadrava num tépido meio-termo. Hamel cita sabiamente: “Não há como adoçar a realidade: esses dados representam a condenação contundente da administração tal como praticada hoje”.

Outro dado alarmante também citado por Hamel: “por que será que menos de 4 em cada 10 consumidores do mundo desenvolvido acreditam que as empresas fazem contribuições “um tanto” ou “em geral” positivas para a sociedade? Por que será que apenas 19% dos americanos respondem aos pesquisadores de opinião pública com a afirmação de que têm “muita” ou “bastante” confiança nas grandes empresas (quando somente o Congresso teve pior avaliação).” Outro dado importante: “15% dos entrevistados avaliaram os padrões éticos dos executivos como “altos” ou “muito altos”.” Os modelos de administração e de como os representantes das empresas vêm se comportando perante a sociedade não são satisfatórios.

Com apenas um quinto dos empregados realmente engajados, dois quintos dos consumidores acreditando nas reais contribuições das empresas e um quarto tendo confiança nos principais comandantes, fica difícil acreditar que o modelo atual terá uma vida útil muito prolongada.
Mas qual a saída viável? Por que é tão difícil mudar o que não satisfaz quem produz e quem consome? O que está faltando às organizações para conseguirem engajamento total de seus colaboradores e satisfação de seus clientes?

Estudos e práticas de empresas que realmente inovam mostram que consumidores esperam que, de fato, as empresas passem a se envolver com os reais problemas enfrentados pela sociedade no dia a dia. Que os discursos de sustentabilidade realmente transformem as cidades, que práticas e atitudes possam mediar conflitos e melhorar de fato a segurança e a saúde das pessoas. Os consumidores querem que as montadoras de fato parem de ofertar veículos que poluem o ar que todos respiram, e não somente possuam fábricas certificadas pela ISO14000. Esperam que as empresas que produzem alimentos realmente ajudem, junto a governos e sociedade, a resolver o problema de distribuição de alimentos do mundo e a fome de milhões de pessoas. E isso vale para todos os segmentos de negócio.

Organizações precisam ter a coragem da inovação e da discussão com a sociedade e com seus representantes, já que o mundo, da maneira como está, não se sustentará por muito tempo. Já se nota isso com a proliferação de grupos radicais terroristas, aumento das manifestações contra governos, aumento da violência em centros urbanos - mesmo nos que antes eram considerados seguros.

Os homens precisam inovar e mudar suas práticas. Estas novas ideias deveriam mudar o comportamento das organizações como um todo para a obtenção de resultados mais convincentes. Organizações e imprensa comentam muito sobre a popularidade de políticos (em minha opinião está correto), mas pouco se fala na popularidade das organizações privadas como agentes de modificação das sociedades. E os índices de aceitação e popularidade não são muito diferentes. Algo precisa mudar, novos modelos já aplicados por organizações focadas em inovação precisam ganhar força e escala. O mundo merece uma dedicação maior de todos.


Fica a reflexão.