terça-feira, 6 de setembro de 2016

O Brasil perderá novamente a oportunidade de ser um gigante?


Por Eduardo Müller Saboia, MSc

Na Rio 2016 o Brasil teve a oportunidade de mostrar para mais de 4 bilhões de habitantes a sua cultura, sua natureza exuberante e única, sua força de realização mesmo em situações adversas, a alegria de sorrir em face de problemas e a vontade de chorar diante da beleza. Somos assim, difíceis de compreender, profissionais do “jeitinho” e de um improviso que chega a dar frio na barriga. Realizamos com poucos recursos e por muitas vezes realizamos pouco. Mas somos únicos, sentimos “saudade”, que povo nenhum pode expressar por não existir esta deliciosa palavra em outros idiomas. Um sonho intenso, um amor eterno, mas que por vezes fica deitado eternamente em berço esplêndido esperando que milagres aconteçam.
O brasileiro tem orgulho em dizer que alimenta o mundo. O Brasil é o primeiro em produção e exportação de açúcar, café e suco de laranja. É o primeiro em exportação e é o segundo em produção de soja, carne bovina, tabaco e carne de frango. Segundo em exportação e terceiro em produção de etanol e milho. Quarto em carnes de peru e suínos. No geral, é o quarto maior exportador mundial. O Agro representa 21% do PIB e 46% da balança comercial. 7% do mercado mundial do Agro é brasileiro. Também emprega 35% da mão-de-obra brasileira mesmo preservando 61% do seu território. Um orgulho imenso. Potencial que não acaba mais.
Mas nem tudo é “Agro-ostentação”, algo pode estar errado. O Brasil não é competitivo em 58% dos produtos agrícolas comercializados. E não é em produtos que deveria nadar de braçada pela exuberância e variedade que tem em seu território: pescados, frutas, bebidas, cereais e farinhas, produtos oleaginosos (exclui-se soja), hortícolas, leguminosas, raízes e tubérculos, além de lácteos. Em todas estas variedades, o Brasil tem menos de 1% de participação do mercado mundial. Que pena! Rios e faixa litorânea, terras, recursos hídricos para irrigação e clima adequado temos de sobra em todas as regiões do norte ao sul, do leste ao oeste.
Há um potencial enorme de crescimento em todos estes segmentos, tanto nos que já vamos bem quanto nos que ainda patinamos. O mundo precisará de muito mais alimentos. Estima-se que em 2050 serão mais de 9 bilhões de habitantes. Ao considerar os meios atuais de produção, o Brasil é o único país a ter todas as condições para fazer frente a esta demanda: recursos hídricos, relevo, área de expansão suficiente e temperatura ideal. Mas o jogo não está ganho, há muito trabalho a ser feito. E se alguns entraves não forem eliminados, o país perderá novamente a grande e talvez única chance de prosperar e de se tornar líder mundial em produção e beneficiamento de alimentos.
O Brasil peca ao fazer poucos acordos comerciais com outros blocos e países. O comércio entre blocos antes representava 20%, hoje representa 40% do comércio de alimentos. Quem estiver fora terá muitas dificuldades de se tornar competitivo.
O Brasil peca ao permitir que o Censo Agropecuário seja postergado e postergado por “falta” de recursos para realiza-lo. O Agro brasileiro mudou muito nos últimos dez anos. A falta de um censo faz com que as políticas públicas de incentivo sejam aplicadas de maneira errada.
O Brasil peca por ser negligente, relapso, irresponsável e ineficiente com a sua logística. É capaz de achar normal que 30% dos grãos plantados e colhidos sejam perdidos em armazéns mal conservados ou em transportes de má qualidade, tanto em modal ferroviário, fluvial e rodoviário.
O Brasil peca por não regulamentar as regras e leis que precisam ser definidas para que os produtores possam trabalhar com menos recursos, mais segurança e de forma sustentável. Por vezes, detém a tecnologia, mas ela não funciona por falta de regulamentação.
O Brasil peca por ser tímido em iniciativas de sustentabilidade. Mesmo que algumas empresas como EMPRAPA estejam fazendo excelentes trabalhos neste sentido, falta vontade política para massificar as vertentes tecnológicas essenciais para o Agro do futuro próximo: biologia sintética, nanotecnologia, ômicas, robótica, agricultura de precisão e também a agricultura vertical.
O Brasil peca por não priorizar a discussão, em todas as esferas da sociedade, da quarta revolução industrial que chegou para ficar. É preciso priorizar, antes que não dê mais tempo, o desenvolvimento e a implantação massiva das tecnologias desruptivas, como o uso no Agro de veículos autônomos, inteligência artificial e robótica, redes de internet móveis no campo que funcionem adequadamente, computação em nuvem que permita o processamento de uma quantidade enorme de dados (big data) e o uso de drones e energias renováveis. Sem isso, sem logística competitiva e sem acordos comerciais favoráveis, o Brasil possivelmente perderá a chance de se tornar o principal player da indústria do Agro, e não será mais a única nação com potencial de suprir a demanda por alimentos do mundo.

Estamos preparados? No Agro não existe o “jeitinho”, só para lembrar...

Fica a reflexão!

terça-feira, 16 de agosto de 2016

Está inconformado com os resultados dos atletas brasileiros na Rio 2016? ...já mediu o SEU índice de produtividade hoje?

Por Eduardo Müller Saboia, MSc.
Não é de hoje que os atletas brasileiros precisam dar explicações a repórteres ao final de cada prova olímpica. A falta de conhecimento da população e dos próprios repórteres, sobre cada modalidade traz ainda mais inconformismo pela aparente falta de resultados satisfatórios. Critica-se pelo investimento feito, pela falta de incentivo e trabalho nas categorias de base, a falta de estrutura e o desperdício de tantos talentos espalhados pelo nosso exuberante território. O técnico ruim, não se dedicou, não têm preparo psicológico, etc. A cada Olimpíada a mesma história, o mesmo despreparo de quem está na posição de julgar aqueles que defendem o país.
Se não for medalha de ouro, não serve. Se for prata, “foi por tão pouco”, se foi bronze, “coitado”. Quarto lugar então, “um azarado”. A produtividade do atleta brasileiro não está diferente da minha, da sua, da nossa, enquanto profissionais. Não vou nem comentar como atletas que NÃO somos, já que mais da metade dos adolescentes e adultos estão acima do peso e muito perto de problemas cardíacos e diabetes. Nós, profissionais brasileiros, com resultados cinco vezes piores que os norte-americanos e europeus em produtividade, estamos exigindo o que dos atletas brasileiros? Que eles façam o que não temos capacidade de fazer? Com que moral se critica um atleta olímpico se precisamos de cinco dias para produzir o que um norte-americano faz em um? Desculpem, mas precisamos de um espelho para refletir sobre as verdadeiras causas de tudo isso. O problema é muito maior e reflete o que temos focado para nós mesmos.
Ok, se a comparação com os norte-americanos e europeus não é justa, já que são países de primeiro mundo, vamos comparar o nosso desempenho com nossos vizinhos Colômbia, Chile e Peru, ou mesmo com os emergentes Índia, África do Sul e Rússia. A nossa competitividade está abaixo destes seis países. Aliás, pelo último ranking divulgado em maio, somos apenas mais produtivos que Croácia, Ucrânia, Mongólia e Venezuela. É, estamos bem piores que os nossos atletas. Isso vale para a nossa indústria, serviços, saúde e com todo respeito, também aos milhões de profissionais servidores públicos.
Em outra pesquisa, divulgada no livro de Gary Hamel, “O que Importa Agora – como construir empresas à prova de fracassos”, de 90 mil trabalhadores pesquisados, somente 21% dos empregados pesquisados estavam realmente engajados no trabalho, no sentido de que “fariam aquele esforço extra” pelos empregadores. Outros 38% estavam em grande parte ou totalmente desengajados, enquanto o restante se enquadrava num tépido meio-termo. Estes dados são relativos aos profissionais de 18 países, incluindo o Brasil.
                E o que está por trás disso? Historicamente aceitamos uma educação de má qualidade, baixo investimento em ciência e pesquisa. Enquanto a maioria dos países já descobriu há anos que investimentos nestas áreas determinam o futuro, nós estamos preocupados com ter ou não carros oficiais, cargos e mais cargos, com o poder sem ser, com as regalias e foros privilegiados, com as novelas globais e se deveria ou não ter a “Voz do Brasil” todo santo dia no rádio às 19h00, ou mesmo se os atletas bateram ou não continência no pódio (que diferença isso faz?). Acreditamos que “na hora damos um jeito”. Jeito? Quando se faz da mesma maneira, não há com obter resultados diferentes.
                Coincidência ou não, um dos setores com maior investimento em pesquisa no país, o do Agronegócio, nada de braçada: somos ouro, prata e bronze em várias categorias! Seja um agricultor e “tente dar um jeito na hora”, veja o que acontece...
                E você, está sendo produtivo e competitivo neste momento? Fica a reflexão.
Por curiosidade, abaixo a lista dos países e a colocação no ranking de produtividade segundo a EXAME.COM:
  1. Hong Kong (China)
  2. Suíça
  3. Estados Unidos
  4. Cingapura
  5. Suécia
  6. Dinamarca
  7. Irlanda
  8. Holanda
  9. Noruega
  10. Canadá
  11. Luxemburgo
  12. Alemanha
  13. Qatar
  14. Taiwan
  15. Emirados Árabes
  16. Nova Zelândia
  17. Austrália
  18. Reino Unido
  19. Malásia
  20. Finlândia
  21. Israel
  22. Bélgica
  23. Islândia
  24. Áustria
  25. China
  26. Japão
  27. República Tcheca
  28. Tailândia
  29. Coreia do Sul
  30. Lituânia
  31. Estônia
  32. França
  33. Polônia
  34. Espanha
  35. Itália
  36. Chile
  37. Letônia
  38. Turquia
  39. Portugal
  40. Eslováquia
  41. Índia
  42. Filipinas
  43. Eslovênia
  44. Rússia
  45. México
  46. Hungria
  47. Cazaquistão
  48. Indonésia
  49. Romênia
  50. Bulgária
  51. Colômbia
  52. África do Sul
  53. Jordânia
  54. Peru
  55. Argentina
  56. Grécia
  57. Brasil
  58. Croácia
  59. Ucrânia
  60. Mongólia
  61. Venezuela

quarta-feira, 13 de julho de 2016

Proibido parar e estacionar: o desassossego de quem trabalha com Demand Planning nos momentos de instabilidade.



Por Eduardo Müller Saboia, MSc.

Fernando Pessoa, no seu “Livro do desassossego” escreveu: “Vivo sempre no presente. O futuro, não o conheço. O passado, já não o tenho”. Mas os profissionais que trabalham diariamente com o Planejamento da Demanda, ou Demand Planning, em empresas de todos os portes e setores, não podem dar-se ao luxo de menosprezar ou desprezar quaisquer que sejam os fatos ou pistas, de qualquer momento ocorrido no passado, que está no presente ou que aponte para o futuro.

Tenho afirmado em meus artigos que os profissionais precisam e devem utilizar de todos os meios necessários para tentar chegar mais perto do que pode ser o futuro. Devem olhar para trás, para os lados e para frente. Consultar todas as bases possíveis de conhecimento para poderem formular os melhores cenários. Fato é: dificilmente conseguirão elaborar propostas e planos que traduzam com exatidão o futuro, por melhores que sejam os modelos utilizados. Basta que se cruzem alguns planos traçados no passado com o que realmente aconteceu e poderá verificar que ainda hoje existem muitos desvios. A magia em se fazer negócios ainda está nisso, não saber como será o futuro e fazer de tudo para tentar advinha-lo ou construí-lo.

Cito aqui dez importantes estratégias para se obter um Planejamento da Demanda eficaz, segundo a revista Industry Week, por meio de artigo publicado de Dave Blanchard:

Definir o melhor e mais adequado processo_

O Planejamento da Demanda é um sub-processo dentro do Planejamento de Vendas e Operações (S&OP) ou Planejamento de Negócios Integrados, não uma atividade independente. Deve permitir a criação de um plano de negócios integrado, capaz de envolver toda a empresa e conduzir o negócio para o atendimento da demanda do cliente e da rentabilidade sustentável da empresa. Essencial definir quem decide e o que, quem participa, quando, como e por que.

Decidir em que nível o planejamento deverá ser trabalhado_

Algumas empresas analisam e planejam a demanda analisando a família de produtos, nível cliente ou geográfico. A maneira como você procura prever e planejar é exclusivo para o seu negócio. Não seja escravo de limitações de tecnologia de informação (ERPs, por exemplo), a sua necessidade de prever e o seu processo são fatores que devem ditar as regras para TI, que deve ser adaptada. Não crie modelos inflexíveis, você deve estar preparado para mudar a forma como você planeja a demanda de acordo com mudanças em seu negócio.

Saber que Demand Planning é um processo colaborativo, não um teste de algoritmo_

As estatísticas fornecem uma base sólida para trabalhar, mas o valor real vem do conhecimento adquirido e dos fatores internos e externos que contextualizam todo o negócio. Geralmente estes fenômenos os modelos estatísticos não conseguem mapear. Implantar a colaboração interna antes de colaboração externa é reconhecer que, quanto mais perto se chega da realidade, de informações do campo, mais assertivo será o planejamento da demanda e melhores serão os resultados de toda a organização.

Saber que Demand Planning não é somente Previsão_

A previsão é um componente do Planejamento da Demanda e se relaciona com a sua melhor estimativa de demanda futura. Empresas que entendem este fenômeno acabam sendo desafiadas pela previsão (e o plano de negócios integrado) e buscam oportunidades para influenciar a demanda. Isto ocorre por meio de eventos de marketing e promoções que trazer a previsão mais em linha com o plano da empresa. Busca-se o resultado. Nietzsche acreditava que "o futuro influencia o presente assim como o passado.” Uma coisa é olhar para o passado para encontrar problemas que podem e devem ser resolvidos. Mas é outra bem diferente é desenvolver um plano para corrigi-los e resolvê-los.
Saber que você não pode controlar o que não se pode medir_
Defina claramente os indicadores chave para o seu processo e constantemente os atualize com os novos dados que estão sendo planejados. Isto o ajudará a verificar se a estratégia realmente é a mais correta.

Capacitar as pessoas antes de Planejar_

Como o processo de planejamento de demanda é multifuncional, muitas pessoas que trabalham com o Planejamento da Demanda não conseguem ter a real dimensão da contribuição que podem dar para a empresa. Como resultado, a qualidade de suas contribuições pode diminuir. Um bom programa de capacitação multifuncional vai ajudar todos a compreenderem sua real contribuição e impacto sobre o desempenho do plano de demanda.

Clarificar os dados_

Serve para que você não gaste todo o seu tempo questionando o processo e perdendo a confiança nele. As etapas e resultados precisam ser claros, não podem restar dúvidas, o que seria um terreno fértil para os outros criticarem ou mesmo fazerem uso errado do plano. O planejamento de demanda lida com grandes quantidades de dados e processos robustos são obrigados a manter os dados limpos.

Acreditar nos números e questionar as exceções_

80% do seu retorno será feito mediante a análise de 20% dos itens. Não tente controlar tudo, dificilmente conseguirá, e mesmo que o faça, não há tanto valor agregado. Invista no processo, torne-o robusto, para poder diminuir o controle.

Usar erros de previsão para lições positivas_

Uma boa previsão estatística terá uma margem de erro adequada, que aponta para um objetivo com a segurança adequada. Isto levará a uma boa gestão de estoque e proporcionará melhores resultados e inventário total inferior.

Desenvolver um processo que possa ser comprovado com resultados_

Um estudo recente mostra que as empresas que se destacam na gestão da demanda – com graus de precisão mais elevados nas previsões - têm estoques menores. Isto garante resultados financeiros mais sustentáveis e traz uma organização maior dentro da empresa.

Estes dez itens estratégicos podem auxiliá-lo a ter um Planejamento de Demanda melhor e mais confiável. Um bom planejamento não acontece por acaso. Trabalho árduo e constante é necessário. Fernando Pessoa já dizia: “Agir, eis a inteligência verdadeira. Serei o que quiser. Mas tenho que querer o que for. O êxito está em ter êxito, e não em ter condições de êxito. Condições de palácio tem qualquer terra larga, mas onde estará o palácio se não o fizerem ali?”

E em momentos de variações de mercado, como vividos na América Latina constantemente, resta a missão do desassossego e da vigilância constante. Em Planejamento da Demanda, não está previsto em código o direito de parar e estacionar.


Fica a reflexão

domingo, 26 de junho de 2016

O mundo mudou, definitivamente. Os modelos tradicionais que funcionaram por décadas estão enfraquecidos e se reinventando. Como devem atuar os profissionais de Inteligência de Mercado e de Planejamento da Demanda em face à tantas mudanças em tão pouco tempo? Participe do CONAGEQ, 1º Congresso Nacional de Gestão da Qualidade, de 18 a 22/07 e confira profissionais do meio acadêmico e empresarial. Serão diversas palestras e minha contribuição será dia 22/07 às 16h00, on-line, de forma gratuita! Basta se inscrever no site e se conectar! Participe! Em meio à crise nada melhor do que se capacitar! Divulgue e compartilhe com todos os seus contatos! Não percam! Http://conageq.com.br/eduardo

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

A Casa da Palavra do povo Dogon: onde a sabedoria fala e a modernidade se cala.


Vinicius de Moraes diria: "Era uma casa, muito engraçada, não tinha teto, não tinha nada. Ninguém podia entrar nela não, porque na casa não tinha chão!". Outros tantos críticos modernos a chamariam de "casebre", "barraco" ou "buraco". Outros ainda complementariam ao chamar de suja, insegura e inútil. Como é perfeita e cruel a ignorância da humanidade moderna.
A "Casa da Palavra", ou Toguna de Indé (francês) poderia ser classificada, na minha humilde opinião, como uma das mais modernas e revolucionárias ferramentas de gestão. Isto mesmo. É simplesmente um local onde as pessoas discutem assuntos de interesse comum, seguindo regras claras. Uma espécie de espaço para reuniões, muito mais eficiente dos que comumente são encontrados nas empresas modernas do século XXI.
Se tivesse sido criada nos Estados Unidos, seria um best seller, daqueles de Hamel & Prahalad, Kaplan e Norton ou mesmo Peter Drucker. Mas não foi, infelizmente. São de autoria dos Dogon, um dos povos mais "primitivos" da humanidade, detentores de um conhecimento notório sobre astrologia, especialmente sobre a constelação Syrius. Astrólogos têm comprovado a existência de estrelas nesta constelação que já eram de conhecimento deste povo "primitivo" há séculos, só para se ter ideia. Mas por serem extremamente pobres e por preservarem hábitos de seus ancestrais, são considerados como não evoluídos, praticamente primitivos. Pode-se fazer um paralelo com o que se pensa de muitos indígenas que vivem em tribos no interior do nosso Brasil, mas em potências de dez ou de cem.
Os Dogon vivem no interior da África Ocidental, mais precisamente em Mali e Burkina Faso, países onde mais de 99% da população vive na extrema pobreza, com menos de um dólar por dia. Por serem pobres e não possuírem celulares, wi-fi, whatsapp e e-mails, eles simplesmente conversam. Seus costumes têm sido transmitidos de geração para geração por meio da palavra, e nenhum registro escrito que conte a história foi encontrado por lá até hoje. Para os Dogon, a palavra vale bem mais que a escrita!
Mas para que esta comunicação ocorra de modo eficiente, eles devem respeitar regras claras e principalmente o conhecimento e a experiência dos mais idosos.
E tudo acontece nas Togunas, ou Casa da Palavra. Lugar público, geralmente situado no centro de cada vilarejo. São construídas a partir de oito pilares que sustentam um teto que fica a um metro e vinte centímetros do chão, de modo a forçar com que todos que estejam dentro dela fiquem sentados. Se a discussão sobre algum tema estiver mais acalorada e os ânimos se exaltarem, não há como se levantar para se impor sobre o outro, nem há espaço para abandonar a discussão e sair. Esta limitação física encoraja a todos a terem uma conversa respeitosa e objetiva, assim como a iniciar e concluir um tema, fato que não acontece nas inúmeras reuniões que acontecem todos os dias. 
São utilizadas pelos anciãos das aldeias para a discutir os problemas da comunidade, mas também podem servir como um local de direito consuetudinário e de tomada de decisões.
As pessoas que frequentam as "Togunas" devem usar gorros com tampões nas orelhas, que enquanto o assunto é exposto, ficam levantadas, simbolizando que estão escutando. Quando os anciãos dão suas palavras de aconselhamento ou comunicam a decisão, os mais jovens devem obrigatoriamente abaixar um dos tampões, simbolizando que as sábias palavras entrarão por um dos ouvidos e não sairão pelo outro. Evitam assim a antiga expressão: "entrou por uma orelha e saiu pela outra". É a sabedoria sendo repassada de geração para outra, em um ritual simples.
Agora para refletir: de quantas reuniões em salas super equipadas você já participou por horas e nada extraiu de útil? De quantas reuniões já participou sem sequer saber direito o tema? Quantas com profissionais extremamente exaltados buscando sempre a razão? Confesso que eu mesmo já me exaltei algumas vezes. Quantas reuniões sem conclusão alguma? Em quantas presenciou todos os participantes concordando com a cabeça e depois do término, cochichando pelos corredores? Em quantas reuniões você deveria ter usado um gorro como os utilizados pelos Dogon e preferiu não prestar atenção, por estar atento aos e-mails que entravam no seu celular?
Será que as modernas empresas e seus colaboradores, graduadíssimos, não deveriam reconsiderar os métodos que vêem utilizando para se comunicarem e para discutirem assuntos relevantes e de interesse da organização? Será que não deveriam reconsiderar o uso de tanta tecnologia, pelo menos para situações nas quais a comunicação face-to-face é possível?
Há pouca eficiência, por vezes, nas casas que não são nada engraçadas, que têm tetos e têm tudo. Tudo, menos entendimento, respeito e comunicação de fato.
Quem é primitivo mesmo? Fica a reflexão!

Eduardo Müller Saboia é Técnico e Engenheiro Industrial Mecânico, Pós-graduado em Gestão Industrial e Mestre em Administração Estratégica. Atua na Indústria de Maquinários Agrícolas como gerente de Demand Planning para a América Latina, segmento Agrícola. Escreve frequentemente no LinkedIn e no blog pessoal “focus on org” (http://www.focusonorg.blogspot.com). Filho, esposo e pai e triatleta amador.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

Quais as novas responsabilidades das organizações?





Por Eduardo Müller Saboia, MSc.

O que mais lhe atrai em um espetáculo musical? A capacidade técnica dos músicos, a acústica do local, a liderança do regente com seus movimentos inconfundíveis, desconcertantes e enigmáticos ou o conjunto da obra? O que lhe faz cair o queixo e pensar: meu Deus, isso é incrível! Como eles fazem isso? Que orquestra fantástica!

Agora pense na empresa onde trabalhou ou trabalha, ou que lhe é fornecedora. Ou ainda, naquela que é cliente ou que já ouviu falar ou leu em uma revista. O que a torna atraente? São os títulos e habilidades de seus executivos e colaboradores, seus produtos repletos de tecnologias e de qualidade? É o atendimento prestado pelos Revendedores, a agilidade na reposição de uma peça? É o prato bem elaborado e na temperatura certa, a cordialidade dos garçons, a limpeza?  O que lhe faz cair o queixo e pensar: meu Deus, eles são incríveis! Como eles conseguem fazer isso? Que empresa fantástica!

O que lhe atrai? Alguma coisa ainda lhe atrai com tantas empresas similares, com tantos produtos e preços semelhantes, com tantas facilidades e ofertas? Provavelmente o resultado de Concertos lhe atraia mais que do que de uma empresa, pois ainda não se tornaram commodities. Ainda possuem um “Q” a mais que encanta, diferencia e os tornam especiais.

Empresas e algumas instituições religiosas seculares perdem força diariamente por fazerem uso de modelos de administração ultrapassados. Produzir para vender e gerar mais receita, por si só, já não encanta os consumidores. Assim como os rituais religiosos que seguem a mesma retórica há séculos também já não prendem a atenção dos fiéis. O mundo mudou, e os modelos tradicionais, mesmo que importantíssimos para todos, precisam acompanhar esta evolução.

O modelo atual de administração perde força a cada dia. Gary Hamel, em seu livro “O que Importa Agora – como construir empresas à prova de fracassos”, cita que em uma pesquisa realizada com 90 mil trabalhadores em 18 países (inclusive o Brasil), somente 21% dos empregados pesquisados estavam realmente engajados no trabalho, no sentido de que “fariam aquele esforço extra” pelos empregadores. Outros 38% estavam em grande parte ou totalmente desengajados, enquanto o restante se enquadrava num tépido meio-termo. Hamel cita sabiamente: “Não há como adoçar a realidade: esses dados representam a condenação contundente da administração tal como praticada hoje”.

Outro dado alarmante também citado por Hamel: “por que será que menos de 4 em cada 10 consumidores do mundo desenvolvido acreditam que as empresas fazem contribuições “um tanto” ou “em geral” positivas para a sociedade? Por que será que apenas 19% dos americanos respondem aos pesquisadores de opinião pública com a afirmação de que têm “muita” ou “bastante” confiança nas grandes empresas (quando somente o Congresso teve pior avaliação).” Outro dado importante: “15% dos entrevistados avaliaram os padrões éticos dos executivos como “altos” ou “muito altos”.” Os modelos de administração e de como os representantes das empresas vêm se comportando perante a sociedade não são satisfatórios.

Com apenas um quinto dos empregados realmente engajados, dois quintos dos consumidores acreditando nas reais contribuições das empresas e um quarto tendo confiança nos principais comandantes, fica difícil acreditar que o modelo atual terá uma vida útil muito prolongada.
Mas qual a saída viável? Por que é tão difícil mudar o que não satisfaz quem produz e quem consome? O que está faltando às organizações para conseguirem engajamento total de seus colaboradores e satisfação de seus clientes?

Estudos e práticas de empresas que realmente inovam mostram que consumidores esperam que, de fato, as empresas passem a se envolver com os reais problemas enfrentados pela sociedade no dia a dia. Que os discursos de sustentabilidade realmente transformem as cidades, que práticas e atitudes possam mediar conflitos e melhorar de fato a segurança e a saúde das pessoas. Os consumidores querem que as montadoras de fato parem de ofertar veículos que poluem o ar que todos respiram, e não somente possuam fábricas certificadas pela ISO14000. Esperam que as empresas que produzem alimentos realmente ajudem, junto a governos e sociedade, a resolver o problema de distribuição de alimentos do mundo e a fome de milhões de pessoas. E isso vale para todos os segmentos de negócio.

Organizações precisam ter a coragem da inovação e da discussão com a sociedade e com seus representantes, já que o mundo, da maneira como está, não se sustentará por muito tempo. Já se nota isso com a proliferação de grupos radicais terroristas, aumento das manifestações contra governos, aumento da violência em centros urbanos - mesmo nos que antes eram considerados seguros.

Os homens precisam inovar e mudar suas práticas. Estas novas ideias deveriam mudar o comportamento das organizações como um todo para a obtenção de resultados mais convincentes. Organizações e imprensa comentam muito sobre a popularidade de políticos (em minha opinião está correto), mas pouco se fala na popularidade das organizações privadas como agentes de modificação das sociedades. E os índices de aceitação e popularidade não são muito diferentes. Algo precisa mudar, novos modelos já aplicados por organizações focadas em inovação precisam ganhar força e escala. O mundo merece uma dedicação maior de todos.


Fica a reflexão.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

Rememorando os valores dos agricultores e de antepassados. Por que, de certa forma, valores tão importantes foram abandonados?


Por Eduardo Müller Saboia, MSc.

Fotos: montagem utilizando fotos do Prêmio New Holland de Fotojornalismo, podem ter direito autorais.


Lembro como se fosse hoje de todos os conselhos que recebia de meus avós e pais quando na infância e adolescência: detestar dívidas para não ser servo de ninguém, estudar muito para poder trabalhar e ser alguém na vida, gastar na medida dos ganhos, acumular reservas financeiras em tempos de vacas gordas para sobreviver em tempos de vacas magras e, o principal, ser extremamente honesto, mesmo que esse não fosse o caminho mais fácil a ser percorrido (e na maioria das vezes pude constatar que não é). Gary Hamel, em seu livro “O que importa agora – como construir empresas à prova de fracassos”, resume estes valores em: prudência, frugalidade, autodisciplina e sacrifício.

Quando pequeno escutava atentamente as estórias de duas famílias, Bettega e Klemtz, que ajudaram o Estado do Paraná a se desenvolver e a criar valores para as pessoas que ali dedicavam suas horas e forças de trabalho. Madeireira de renome no Brasil e exterior, a J. Bettega foi, nos anos quarenta, a maior indústria do Paraná e produziu os famosos pisos de parquet de residências e palácios ao redor do mundo, além de beneficiar a madeira para diversos usos. A Cerâmica Klemtz, primeira olaria do Paraná, contribuiu com os telhas e tijolos de qualidade para milhares de residências desde o final do século XIX. Ambas criadas a partir do empreendedorismo de seus fundadores, João Bettega e Francisco Klemtz, respectivamente, homens de caráteres inabaláveis e de extrema sabedoria.

Sou da numerosa quinta geração destes empreendedores. Hoje ambas as empresas pertencem a parentes distantes e tudo o que foi construído resume-se, em parte, a história, a nomes de ruas e aos ensinamentos deixados aos seus descendentes. De meus avós e pais, herdou-se prudência, frugalidade, autodisciplina, sacrifício e honestidade. Lembro-me das estórias sobre a necessidade de acordar de hora em hora de madrugada para colocar lenha no forno e garantir a olaria funcionando vinte e quatro horas por dia para atender à demanda da época. Lembro-me das dezenas de casas construídas para abrigar os funcionários e da necessidade de projetar e construir as próprias máquinas para não precisar importa-las. Lembro-me de tanta coisa que escutei de meus avós e pais, e outras que presenciei quando na infância. Estes valores formaram o meu caráter.

Podem-se encontrar os mesmos valores em agricultores e em outros ofícios, quando tentam controlar diversas variáveis ao mesmo tempo para garantirem seus plantios e colheitas: clima, seca, chuva, pragas em geral, qualidade da terra, qualidade das sementes e dos maquinários, transporte, financiamentos, seguros, preços das commodities, estocagem e armazenagem, mão de obra, etc. Sem prudência, frugalidade, autodisciplina e sacrifício, não há alimento para as pessoas.

Pode-se notar que valores de tal natureza, fundamentais em países desenvolvidos – base daquelas economias – estão se tornando escassos. Milhões de consumidores estão substituindo a austeridade pela extravagância. As pessoas foram estimuladas nas últimas décadas a se afundarem em empréstimos. Acreditaram em campanhas de marketing que prometeram mais felicidade aos que têm um carro na garagem do que aos que os admiram nos show room dos concessionários. Isso quase quebrou os Estados Unidos em 2008. No Brasil não é diferente. O endividamento das famílias brasileiras está em torno de 46%, ou seja, os brasileiros comprometem quase metade da renda nos últimos doze meses somente com dívidas. O “sonho” do carro e da casa própria, para muitos, torna-se um pesadelo interminável.

Empresas em geral também têm perdido importantes valores, por mais que estejam fazendo para mantê-los. Acumular reservas financeiras em tempos de vacas gordas para sobreviver em tempos de vacas magras é um grande desafio, assim como ser frugal. Quanto à honestidade, os departamentos de Compliance fazem um esforço significativo para expurgar colaboradores que insistem em trabalhar em troca de propina (a operação Lava Jato da Polícia Federal mostra que ainda há muito trabalho a ser feito).

Era de se prever, que algum dia, a conta teria que ser paga.

Brasileiros e consumidores ao redor do mundo, viciados em dívidas, precisarão passar por um processo de reabilitação, segundo Hamel. O problema é que, dívidas são dívidas, e se existe alguém devendo é porque existe alguém cobrando. E a reabilitação nem sempre é possível e indolor. Muito pelo contrário.

Talvez o melhor remédio no longo prazo seja a reeducação. Buscar os antigos valores já citados acima para prevenir e não mais corrigir. A correção é sempre mais dispendiosa e dolorosa, pois força o corte de colaboradores, exige mais trabalho com altos riscos agregados. Mas quem quer educar? E quem quer ser educado com tantas ofertas e tentações nas mídias e tanta competição por status social?

Fica a reflexão!

Eduardo Müller Saboia é Técnico e Engenheiro Industrial Mecânico, Pós-graduado em Gestão Industrial e Mestre em Administração Estratégica. Atua na Indústria de Maquinários Agrícolas como gerente de Business Intelligence, S&OP e Administração de Vendas para a América Latina. Escreve frequentemente no LinkedIn e no blog pessoal “focus on org” (http://www.focusonorg.blogspot.com). Filho, esposo e pai e triatleta amador.