quarta-feira, 14 de outubro de 2015

"Espremam os indicadores até que eles confessem!"


No momento em que mandioca se mistura com o dobro das metas que não existem e a crise político-econômica desnorteia a cadeia produtiva e de serviços, desafios ainda maiores surgem. Com os mercados globais tumultuados ao longo das últimas semanas, e principalmente com um Brasil desorientado e rebaixado, líderes e executivos pensam em como responder a uma crise econômica e política dessa magnitude, ou da magnitude que imaginamos que ela tenha. Como prever os mercados? Como determinar novas metas? Baseados em que os profissionais incumbidos desta difícil missão estão tomando suas decisões? Como liderar e gerenciar quando a demanda cai de repente como aconteceu no país neste ano? E como essas escolhas afetam a competitividade de uma empresa depois que a recessão termina? Como pagar as contas? Muitas são as questões, complexos os fatos que nos desafiam neste momento. A solução mais provável para os questionamentos acima, mais uma vez, parece ser a velha conhecida EDUCAÇÃO, que tanto se delega neste país. Frase com sujeito oculto, sem dona, sem responsabilidade, sem orçamento e sem foco. Para ter uma ideia do tamanho do problema, a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) divulgou em maio um ranking mundial de qualidade de educação. Entre os 76 países avaliados, o Brasil ocupa a 60ª posição. No ranking de Competitividade e Retorno Social, segundo a mesma pesquisa, estamos em penúltimo lugar dentre todos os países pesquisados. Uma vergonha. Entre mandiocas sapiens, metas, travessias, cortes, rebaixamento e aumento de impostos, desnorteados, buscamos delinear o futuro, sem conhecimento, sem educação.                        
Em uma crise como esta que estamos “atravessando” (usando as palavras do Poder Executivo), parece haver apenas duas certezas: a primeira é que um período de crise como este dura mais tempo que um período virtuoso, mesmo que os remédios aplicados sejam muito amargos. Quebrou-se a confiança, e isso não se recupera por decreto.  Os impactos negativos, de tardias e erradas decisões do passado próximo, tendem a se prolongar e prejudicar uma geração inteira. Ilude-se quem acha que teremos apenas alguns anos até voltarmos a novos ciclos positivos. Os impactos na qualidade da educação, pesquisa e tecnologia serão irrecuperáveis no curto prazo. A geração Y, que até agora era muito criativa, terá de ser ainda mais para poder manter seus altos custos de vida, desempregada. Hábitos caros foram adquiridos nas últimas décadas e isso terá um custo ainda maior para poder ser mantido. O brasileiro que aumentou seus rendimentos nos últimos anos tirou nota baixa ao investir em produtos e deixar de lado uma educação de qualidade. Foi, na maioria dos casos, aluno, mas não foi um estudante de verdade, capaz de transformar oportunidade em novas formas de criação de riqueza. Gastou sua poupança em bens não duráveis e jogou fora uma oportunidade de ouro de romper o estágio purgatório. O brasileiro precisa, definitivamente, aprender que estudar é coisa séria, não é “zoeira”. Precisa aprender que no mundo contemporâneo não há mais lugar para os despreparados intelectualmente. Educação não é brincadeira, ainda mais quando se busca produtividade e competitividade de fato.
A segunda certeza é que todos ficam ansiosos e por vezes até exaltados na busca de dados que possam nortear o futuro. Mesmo com muitos especialistas ou aplicativos tentando fazer o papel de “Mestre dos Magos”, ao indicar uma possível saída, a tarefa exige conhecimento de causa para se indicar os caminhos menos tortuosos entre o presente e o futuro. Sou da opinião que há que se orientar utilizando-se das ferramentas corretas.  Saber exatamente o que o futuro reservará é tarefa tanto quanto desafiadora e requer o uso das ferramentas adequadas para que não se torne um enorme contratempo para uma organização. Mais uma vez, a saída está no conhecimento e na sua aplicação para a solução dos nossos problemas. Mais uma vez, a vida seleciona e separa os que foram alunos dos que foram estudantes de verdade. Os que detêm o conhecimento das ferramentas adequadas podem ser os grandes vitoriosos num momento como este. E os que foram alunos, viram dependentes dos que foram estudantes, ou seja, estão ainda mais vulneráveis.
As ferramentas que podem ser utilizadas para se delinear o futuro passam longe das bolas de cristal ou da consulta a cartomantes, búzios ou tarô. Também não significam somente “Experiência”, “Feeling” ou suposições. Estes são também muito importantes, mas não entregam a solução completa. O uso da ciência é mandatório. Como exemplo, muitas são as ferramentas estatísticas que podem ser utilizadas para a construção de linhas de tendências, elaboração de cenários e simulações de comportamento de variáveis. Modelos matemáticos são essenciais para dar base a qualquer informação de campo que venha a surgir, mas é preciso saber usá-los. O controle de determinadas variáveis inerentes aos processos de decisão para o cumprimento de metas é muito importante, ainda mais em épocas de visível fragilidade. Os métodos estatísticos servem justamente para ordenar o que está em aparente descontrole e para explicar, mesmo que parcialmente, os comportamentos dos números. Controlar certas variáveis em um momento como o que estamos vivendo significa ter um controle também sobre as metas e sobre o futuro. O uso do conhecimento, somado à experiência, dá a solução completa.

O momento é de cautela. Pé atrás. Como diria o sociólogo e político brasileiro Guerreiro Ramos, sempre citado pelo saudoso Belmiro Valverde Castor em suas aulas e palestras, “esprema os indicadores até que eles confessem”. Todo tipo de informação deve ser trabalhada para que possa se transformar em conhecimento e, por consequência, em diferencial competitivo. Informações de campo, de clientes, dos operadores financeiros, da mídia, dos fornecedores, da administração pública, dos grandes e dos pequenos, dos mais ou menos favorecidos, devem ser levadas em conta. Aplicar a educação recebida para transformar dados em conhecimento e riqueza, talvez seja o maior desafio do povo brasileiro daqui para frente. E talvez tenha sido a maior perda de oportunidade que se teve nas últimas décadas, de certa estabilidade econômica e política, oportunidade nunca vista antes na história deste país. Agora fica tudo mais difícil com um novo corte de 3,8 bilhões de reais no orçamento da educação. Boa sorte a todos nós.

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