sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

A Casa da Palavra do povo Dogon: onde a sabedoria fala e a modernidade se cala.


Vinicius de Moraes diria: "Era uma casa, muito engraçada, não tinha teto, não tinha nada. Ninguém podia entrar nela não, porque na casa não tinha chão!". Outros tantos críticos modernos a chamariam de "casebre", "barraco" ou "buraco". Outros ainda complementariam ao chamar de suja, insegura e inútil. Como é perfeita e cruel a ignorância da humanidade moderna.
A "Casa da Palavra", ou Toguna de Indé (francês) poderia ser classificada, na minha humilde opinião, como uma das mais modernas e revolucionárias ferramentas de gestão. Isto mesmo. É simplesmente um local onde as pessoas discutem assuntos de interesse comum, seguindo regras claras. Uma espécie de espaço para reuniões, muito mais eficiente dos que comumente são encontrados nas empresas modernas do século XXI.
Se tivesse sido criada nos Estados Unidos, seria um best seller, daqueles de Hamel & Prahalad, Kaplan e Norton ou mesmo Peter Drucker. Mas não foi, infelizmente. São de autoria dos Dogon, um dos povos mais "primitivos" da humanidade, detentores de um conhecimento notório sobre astrologia, especialmente sobre a constelação Syrius. Astrólogos têm comprovado a existência de estrelas nesta constelação que já eram de conhecimento deste povo "primitivo" há séculos, só para se ter ideia. Mas por serem extremamente pobres e por preservarem hábitos de seus ancestrais, são considerados como não evoluídos, praticamente primitivos. Pode-se fazer um paralelo com o que se pensa de muitos indígenas que vivem em tribos no interior do nosso Brasil, mas em potências de dez ou de cem.
Os Dogon vivem no interior da África Ocidental, mais precisamente em Mali e Burkina Faso, países onde mais de 99% da população vive na extrema pobreza, com menos de um dólar por dia. Por serem pobres e não possuírem celulares, wi-fi, whatsapp e e-mails, eles simplesmente conversam. Seus costumes têm sido transmitidos de geração para geração por meio da palavra, e nenhum registro escrito que conte a história foi encontrado por lá até hoje. Para os Dogon, a palavra vale bem mais que a escrita!
Mas para que esta comunicação ocorra de modo eficiente, eles devem respeitar regras claras e principalmente o conhecimento e a experiência dos mais idosos.
E tudo acontece nas Togunas, ou Casa da Palavra. Lugar público, geralmente situado no centro de cada vilarejo. São construídas a partir de oito pilares que sustentam um teto que fica a um metro e vinte centímetros do chão, de modo a forçar com que todos que estejam dentro dela fiquem sentados. Se a discussão sobre algum tema estiver mais acalorada e os ânimos se exaltarem, não há como se levantar para se impor sobre o outro, nem há espaço para abandonar a discussão e sair. Esta limitação física encoraja a todos a terem uma conversa respeitosa e objetiva, assim como a iniciar e concluir um tema, fato que não acontece nas inúmeras reuniões que acontecem todos os dias. 
São utilizadas pelos anciãos das aldeias para a discutir os problemas da comunidade, mas também podem servir como um local de direito consuetudinário e de tomada de decisões.
As pessoas que frequentam as "Togunas" devem usar gorros com tampões nas orelhas, que enquanto o assunto é exposto, ficam levantadas, simbolizando que estão escutando. Quando os anciãos dão suas palavras de aconselhamento ou comunicam a decisão, os mais jovens devem obrigatoriamente abaixar um dos tampões, simbolizando que as sábias palavras entrarão por um dos ouvidos e não sairão pelo outro. Evitam assim a antiga expressão: "entrou por uma orelha e saiu pela outra". É a sabedoria sendo repassada de geração para outra, em um ritual simples.
Agora para refletir: de quantas reuniões em salas super equipadas você já participou por horas e nada extraiu de útil? De quantas reuniões já participou sem sequer saber direito o tema? Quantas com profissionais extremamente exaltados buscando sempre a razão? Confesso que eu mesmo já me exaltei algumas vezes. Quantas reuniões sem conclusão alguma? Em quantas presenciou todos os participantes concordando com a cabeça e depois do término, cochichando pelos corredores? Em quantas reuniões você deveria ter usado um gorro como os utilizados pelos Dogon e preferiu não prestar atenção, por estar atento aos e-mails que entravam no seu celular?
Será que as modernas empresas e seus colaboradores, graduadíssimos, não deveriam reconsiderar os métodos que vêem utilizando para se comunicarem e para discutirem assuntos relevantes e de interesse da organização? Será que não deveriam reconsiderar o uso de tanta tecnologia, pelo menos para situações nas quais a comunicação face-to-face é possível?
Há pouca eficiência, por vezes, nas casas que não são nada engraçadas, que têm tetos e têm tudo. Tudo, menos entendimento, respeito e comunicação de fato.
Quem é primitivo mesmo? Fica a reflexão!

Eduardo Müller Saboia é Técnico e Engenheiro Industrial Mecânico, Pós-graduado em Gestão Industrial e Mestre em Administração Estratégica. Atua na Indústria de Maquinários Agrícolas como gerente de Demand Planning para a América Latina, segmento Agrícola. Escreve frequentemente no LinkedIn e no blog pessoal “focus on org” (http://www.focusonorg.blogspot.com). Filho, esposo e pai e triatleta amador.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

Quais as novas responsabilidades das organizações?





Por Eduardo Müller Saboia, MSc.

O que mais lhe atrai em um espetáculo musical? A capacidade técnica dos músicos, a acústica do local, a liderança do regente com seus movimentos inconfundíveis, desconcertantes e enigmáticos ou o conjunto da obra? O que lhe faz cair o queixo e pensar: meu Deus, isso é incrível! Como eles fazem isso? Que orquestra fantástica!

Agora pense na empresa onde trabalhou ou trabalha, ou que lhe é fornecedora. Ou ainda, naquela que é cliente ou que já ouviu falar ou leu em uma revista. O que a torna atraente? São os títulos e habilidades de seus executivos e colaboradores, seus produtos repletos de tecnologias e de qualidade? É o atendimento prestado pelos Revendedores, a agilidade na reposição de uma peça? É o prato bem elaborado e na temperatura certa, a cordialidade dos garçons, a limpeza?  O que lhe faz cair o queixo e pensar: meu Deus, eles são incríveis! Como eles conseguem fazer isso? Que empresa fantástica!

O que lhe atrai? Alguma coisa ainda lhe atrai com tantas empresas similares, com tantos produtos e preços semelhantes, com tantas facilidades e ofertas? Provavelmente o resultado de Concertos lhe atraia mais que do que de uma empresa, pois ainda não se tornaram commodities. Ainda possuem um “Q” a mais que encanta, diferencia e os tornam especiais.

Empresas e algumas instituições religiosas seculares perdem força diariamente por fazerem uso de modelos de administração ultrapassados. Produzir para vender e gerar mais receita, por si só, já não encanta os consumidores. Assim como os rituais religiosos que seguem a mesma retórica há séculos também já não prendem a atenção dos fiéis. O mundo mudou, e os modelos tradicionais, mesmo que importantíssimos para todos, precisam acompanhar esta evolução.

O modelo atual de administração perde força a cada dia. Gary Hamel, em seu livro “O que Importa Agora – como construir empresas à prova de fracassos”, cita que em uma pesquisa realizada com 90 mil trabalhadores em 18 países (inclusive o Brasil), somente 21% dos empregados pesquisados estavam realmente engajados no trabalho, no sentido de que “fariam aquele esforço extra” pelos empregadores. Outros 38% estavam em grande parte ou totalmente desengajados, enquanto o restante se enquadrava num tépido meio-termo. Hamel cita sabiamente: “Não há como adoçar a realidade: esses dados representam a condenação contundente da administração tal como praticada hoje”.

Outro dado alarmante também citado por Hamel: “por que será que menos de 4 em cada 10 consumidores do mundo desenvolvido acreditam que as empresas fazem contribuições “um tanto” ou “em geral” positivas para a sociedade? Por que será que apenas 19% dos americanos respondem aos pesquisadores de opinião pública com a afirmação de que têm “muita” ou “bastante” confiança nas grandes empresas (quando somente o Congresso teve pior avaliação).” Outro dado importante: “15% dos entrevistados avaliaram os padrões éticos dos executivos como “altos” ou “muito altos”.” Os modelos de administração e de como os representantes das empresas vêm se comportando perante a sociedade não são satisfatórios.

Com apenas um quinto dos empregados realmente engajados, dois quintos dos consumidores acreditando nas reais contribuições das empresas e um quarto tendo confiança nos principais comandantes, fica difícil acreditar que o modelo atual terá uma vida útil muito prolongada.
Mas qual a saída viável? Por que é tão difícil mudar o que não satisfaz quem produz e quem consome? O que está faltando às organizações para conseguirem engajamento total de seus colaboradores e satisfação de seus clientes?

Estudos e práticas de empresas que realmente inovam mostram que consumidores esperam que, de fato, as empresas passem a se envolver com os reais problemas enfrentados pela sociedade no dia a dia. Que os discursos de sustentabilidade realmente transformem as cidades, que práticas e atitudes possam mediar conflitos e melhorar de fato a segurança e a saúde das pessoas. Os consumidores querem que as montadoras de fato parem de ofertar veículos que poluem o ar que todos respiram, e não somente possuam fábricas certificadas pela ISO14000. Esperam que as empresas que produzem alimentos realmente ajudem, junto a governos e sociedade, a resolver o problema de distribuição de alimentos do mundo e a fome de milhões de pessoas. E isso vale para todos os segmentos de negócio.

Organizações precisam ter a coragem da inovação e da discussão com a sociedade e com seus representantes, já que o mundo, da maneira como está, não se sustentará por muito tempo. Já se nota isso com a proliferação de grupos radicais terroristas, aumento das manifestações contra governos, aumento da violência em centros urbanos - mesmo nos que antes eram considerados seguros.

Os homens precisam inovar e mudar suas práticas. Estas novas ideias deveriam mudar o comportamento das organizações como um todo para a obtenção de resultados mais convincentes. Organizações e imprensa comentam muito sobre a popularidade de políticos (em minha opinião está correto), mas pouco se fala na popularidade das organizações privadas como agentes de modificação das sociedades. E os índices de aceitação e popularidade não são muito diferentes. Algo precisa mudar, novos modelos já aplicados por organizações focadas em inovação precisam ganhar força e escala. O mundo merece uma dedicação maior de todos.


Fica a reflexão.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

Rememorando os valores dos agricultores e de antepassados. Por que, de certa forma, valores tão importantes foram abandonados?


Por Eduardo Müller Saboia, MSc.

Fotos: montagem utilizando fotos do Prêmio New Holland de Fotojornalismo, podem ter direito autorais.


Lembro como se fosse hoje de todos os conselhos que recebia de meus avós e pais quando na infância e adolescência: detestar dívidas para não ser servo de ninguém, estudar muito para poder trabalhar e ser alguém na vida, gastar na medida dos ganhos, acumular reservas financeiras em tempos de vacas gordas para sobreviver em tempos de vacas magras e, o principal, ser extremamente honesto, mesmo que esse não fosse o caminho mais fácil a ser percorrido (e na maioria das vezes pude constatar que não é). Gary Hamel, em seu livro “O que importa agora – como construir empresas à prova de fracassos”, resume estes valores em: prudência, frugalidade, autodisciplina e sacrifício.

Quando pequeno escutava atentamente as estórias de duas famílias, Bettega e Klemtz, que ajudaram o Estado do Paraná a se desenvolver e a criar valores para as pessoas que ali dedicavam suas horas e forças de trabalho. Madeireira de renome no Brasil e exterior, a J. Bettega foi, nos anos quarenta, a maior indústria do Paraná e produziu os famosos pisos de parquet de residências e palácios ao redor do mundo, além de beneficiar a madeira para diversos usos. A Cerâmica Klemtz, primeira olaria do Paraná, contribuiu com os telhas e tijolos de qualidade para milhares de residências desde o final do século XIX. Ambas criadas a partir do empreendedorismo de seus fundadores, João Bettega e Francisco Klemtz, respectivamente, homens de caráteres inabaláveis e de extrema sabedoria.

Sou da numerosa quinta geração destes empreendedores. Hoje ambas as empresas pertencem a parentes distantes e tudo o que foi construído resume-se, em parte, a história, a nomes de ruas e aos ensinamentos deixados aos seus descendentes. De meus avós e pais, herdou-se prudência, frugalidade, autodisciplina, sacrifício e honestidade. Lembro-me das estórias sobre a necessidade de acordar de hora em hora de madrugada para colocar lenha no forno e garantir a olaria funcionando vinte e quatro horas por dia para atender à demanda da época. Lembro-me das dezenas de casas construídas para abrigar os funcionários e da necessidade de projetar e construir as próprias máquinas para não precisar importa-las. Lembro-me de tanta coisa que escutei de meus avós e pais, e outras que presenciei quando na infância. Estes valores formaram o meu caráter.

Podem-se encontrar os mesmos valores em agricultores e em outros ofícios, quando tentam controlar diversas variáveis ao mesmo tempo para garantirem seus plantios e colheitas: clima, seca, chuva, pragas em geral, qualidade da terra, qualidade das sementes e dos maquinários, transporte, financiamentos, seguros, preços das commodities, estocagem e armazenagem, mão de obra, etc. Sem prudência, frugalidade, autodisciplina e sacrifício, não há alimento para as pessoas.

Pode-se notar que valores de tal natureza, fundamentais em países desenvolvidos – base daquelas economias – estão se tornando escassos. Milhões de consumidores estão substituindo a austeridade pela extravagância. As pessoas foram estimuladas nas últimas décadas a se afundarem em empréstimos. Acreditaram em campanhas de marketing que prometeram mais felicidade aos que têm um carro na garagem do que aos que os admiram nos show room dos concessionários. Isso quase quebrou os Estados Unidos em 2008. No Brasil não é diferente. O endividamento das famílias brasileiras está em torno de 46%, ou seja, os brasileiros comprometem quase metade da renda nos últimos doze meses somente com dívidas. O “sonho” do carro e da casa própria, para muitos, torna-se um pesadelo interminável.

Empresas em geral também têm perdido importantes valores, por mais que estejam fazendo para mantê-los. Acumular reservas financeiras em tempos de vacas gordas para sobreviver em tempos de vacas magras é um grande desafio, assim como ser frugal. Quanto à honestidade, os departamentos de Compliance fazem um esforço significativo para expurgar colaboradores que insistem em trabalhar em troca de propina (a operação Lava Jato da Polícia Federal mostra que ainda há muito trabalho a ser feito).

Era de se prever, que algum dia, a conta teria que ser paga.

Brasileiros e consumidores ao redor do mundo, viciados em dívidas, precisarão passar por um processo de reabilitação, segundo Hamel. O problema é que, dívidas são dívidas, e se existe alguém devendo é porque existe alguém cobrando. E a reabilitação nem sempre é possível e indolor. Muito pelo contrário.

Talvez o melhor remédio no longo prazo seja a reeducação. Buscar os antigos valores já citados acima para prevenir e não mais corrigir. A correção é sempre mais dispendiosa e dolorosa, pois força o corte de colaboradores, exige mais trabalho com altos riscos agregados. Mas quem quer educar? E quem quer ser educado com tantas ofertas e tentações nas mídias e tanta competição por status social?

Fica a reflexão!

Eduardo Müller Saboia é Técnico e Engenheiro Industrial Mecânico, Pós-graduado em Gestão Industrial e Mestre em Administração Estratégica. Atua na Indústria de Maquinários Agrícolas como gerente de Business Intelligence, S&OP e Administração de Vendas para a América Latina. Escreve frequentemente no LinkedIn e no blog pessoal “focus on org” (http://www.focusonorg.blogspot.com). Filho, esposo e pai e triatleta amador.

sábado, 14 de novembro de 2015

“Mais outro número, outro número, outro número. Outro número, outro número. Outro número, outro número. Eu não sou bola de bilhare. [...] É noite de blecau! É noite de blecau!”


Por Eduardo Müller Saboia, M. Sc.



Título: verso da música “Rock Americano”, Titãs, Compositores: Sérgio Britto, Mauro E Quitéria.

A ansiedade é a irmã histérica da esperança. Em um contexto de indefinições e mudanças repentinas de regras por parte do governo, os executivos estão submetidos a overdoses de histeria, ou melhor, de ansiedade e de cenários. Na ânsia de uma resposta, espremem-se os indicadores na esperança de que eles confessem, de que indiquem um norte a ser seguido, mas está muito difícil. As novas regras de mercado estão conseguindo anular até modelos e princípios estatísticos que sempre funcionaram e pondo em xeque os futuros resultados de pessoas e organizações. Não está fácil. Na verdade, está ficando difícil.
Cenários. Palavra ouvida dezena de vezes nas últimas semanas. Outro número, mais um número, outro número. É tempo de blecaute. Simulações. Diversas elaboradas a cada instante. Os cenários são ferramentas que suportam o planejamento estratégico das empresas, mas quando em demasia, podem confundir e prejudicar a qualidade da decisão. Segundo Porter, "diante do contexto organizacional, a análise de cenários auxilia o planejamento estratégico mediante o estudo de possíveis futuras ocorrências. É uma visão de futuro internamente consistente, baseado em suposições plausíveis sobre os importantes temas que podem influenciar um setor."
Por falta de regras claras do governo, toda previsão de resultados das empresas é, por vezes, totalmente factível, e por outras, totalmente ilusão. Fato é que, sem uma base minimamente regulamentada e sem um histórico que sirva para delinear o futuro, os cenários ficam atrelados a variáveis pouco confiáveis, imprevisíveis e voláteis. No Brasil, cenários estratégicos que nas últimas décadas eram baseados na razão, perderam espaço para a abstração e para a imaginação.
Segundo a terminologia filosófica, a abstração e a imaginação são processos de pensamento em que as ideias são distanciadas dos objetos ou há uma representação dos mesmos através dos sentidos.
A abstração usa a estratégia de simplificação, em que detalhes concretos são deixados ambíguos, vagos ou indefinidos. Assim, uma decisão sobre as coisas abstratas requer uma intuição ou experiência comum entre quem decide e quem acata a decisão. Na falta de algo concreto, a abstração surge como um atalhopara o pensamento poder reencontrar razões minimamente plausíveis para uma conclusão.
Já a imaginação, é um processo no qual o subconsciente pronuncia-se perante a consciência. Trata-se da capacidade de um grupo ou de um indivíduo de representar o mundo com a ajuda de um recurso de associação de imagens que lhe atribuem um sentido.
Estes dois conceitos são apresentados no filme “DivertidaMente”, da Disney Pixar, quando as personagens Alegria e Tristeza precisam, de certa forma, recuperar a memória de uma menina. Para conseguirem voltar à normalidade e restabelecer o controle da situação, ambas decidem seguir uma linha de pensamento (no filme, um trilho com um Trem). O acesso ao pensamento (ou Trem) só podia ser feito por meio de atalhos (Estações Secundárias de Trem), já que os caminhos normais (Estações Principais de Trem) haviam sido corrompidos e estavam inacessíveis. Os atalhos, neste caso, eram duas estações secundárias, chamadas de Abstração (quando se destroem os modelos pré-concebidos) e Imaginação (quando se recriam novos modelos a partir do subconsciente).
Abstração e imaginação estão novamente na moda. Já se havia esquecido quão importantes estes processos do pensamento são para as economias que passam por grandes flutuações ou que não possuem regras e leis que valham por um longo período. Quando o país começa a ser governado por decretos ou portarias que tendem somente a encobrir problemas no curto prazo – se é que é possível – e se esquece dos efeitos a médio e longo prazo, tem-se um grave problema para as próximas gerações.
Portanto, deve-se abstrair e imaginar. É hora de extremos. Que seja possível então a quebra de muitos modelos daqui para frente, inclusive o da governança. Recebi outro dia, via Facebook, uma frase escrita em um muro de Curitiba: “Que as ideias voltem a ser perigosas!” Até que se tenha um novo período de estabilidade, que impere a ansiedade, a histeria e a esperança e que sejamos guiados pela abstração e pela imaginação. Que sejam revogadas as leis da estatística, da matemática e do bom senso! No Brasil, quem sabe também a lei da gravidade, pois o que deveria cair no momento, não cai. 
Fica a reflexão!

domingo, 1 de novembro de 2015

Os brasileiros terão um Feliz Natal e um Próspero Ano Novo?

foto: montagem com fotos retiradas da internet, podem conter direitos autorais.


Por Eduardo Müller Saboia, M. Sc.

O Brasil é tão contraditório que, em pleno verão, o Papai Noel se veste com roupas pesadas, os enfeites natalinos vertem neve e tradicionalmente as pessoas comem castanhas, avelãs, amêndoas e nozes, frutos oleaginosos e calóricos, atípicos para a estação de um país majoritariamente tropical. Por mais que o Papai Noel venha do polo Norte, não haveria razão para não se livrar das roupas pesadas ao entrar em território brasileiro e se vestir com bermuda e camiseta, em plenos 40°C, à sombra.

Sim, o Brasil é o país das contradições. Provavelmente é o melhor neste quesito. Entendê-lo, não é tarefa fácil nem mesmo para brasileiros, como eu. Tom Jobim, memorável músico brasileiro, dizia que o “Brasil não é para principiantes”. Na mesma linha, Belmiro Valverde Jobim Castor, PhD em Administração Pública pela Southern Califórnia, deixou isso bem claro no livro “O Brasil não é para Amadores – Estado, Governo, Burocracia na Terra do “Jeitinho””, também lançado nos Estados Unidos.

Quando o preço do petróleo cai no mercado internacional, o preço da gasolina aumenta nos postos. Nos dias de péssimas notícias no mercado financeiro, a Bolsa de Valores sobe. Enquanto poucos têm muito, muitos têm pouco. Têm-se campeões mundiais e olímpicos em diversas modalidades do esporte, mas políticas pífias de incentivo aos mesmos. Ser brasileiro é um orgulho enorme e todos que aqui chegam, o amam e não o deixam. Mas poucos se surpreendem quando milhares são mortos em acidentes nas estradas ou em assaltos todos os meses. A população é jovem, mas os investimentos em educação são baixos e os resultados péssimos. Têm-se milhões de alunos, mas poucos estudantes de fato. O Brasil está em penúltimo lugar em um ranking de educação entre 76 países pesquisados (IBCE).

Ao mesmo tempo, existem empresas líderes no mercado mundial em seus segmentos. A agricultura é um exemplo de produtividade e tecnologia para o mundo, quando abastece mais de 10% de todas as mesas do planeta, mesmo que mais de 20% dos grãos sejam perdidos no transporte entre produtores e portos. Os problemas de infraestrutura são enormes, por mais que se tenha melhorado muito nos últimos dez anos. País de dimensões continentais, 5ª maior população, 7ª maior economia do mundo, 63ª em renda per capita, 79º em IDH (índice de Desenvolvimento Humano) e 116° lugar em um ranking que aponta a facilidade de se fazer negócios.

A burocracia é um gargalo. Nem mesmo o amado, temido e respeitado futebol está de cabeça erguida.
Gigante pela própria natureza, rico, adorável, desigual, com mais de duzentos milhões de habitantes submetidos a uma das maiores cargas tributárias do mundo com um dos piores retornos sobre esses tributos. E acreditem, é um dos países mais maravilhosos do mundo para se viver e um dos que tem mais oportunidades. Merece toda a atenção do mundo, por mais contraditório e desafiante que pareça ser.

Percebe-se que o Brasil saiu da letargia nos anos noventa depois da implantação do Plano Real. O país cresceu substancialmente em dez anos, iniciou-se um processo de melhoramento da infraestrutura e da produtividade das empresas, aumentaram-se as exportações de produtos. Nestes anos, conseguiu-se reduzir a desigualdade social e as classes menos favorecidas passaram a consumir e a ter mais renda. A taxa de desemprego chegou a 3%. Aumentaram-se os gastos públicos a níveis assustadores, a ponto de, na primeira dificuldade de gerar PIB, os cálculos não fecharam mais.

De lá para cá, a geração de riquezas passou a ser menor que os gastos. Gerou-se um déficit orçamentário enorme e o país entrou em recessão. Ao mesmo tempo, um esquema gigantesco de corrupção, envolvendo a maior empresa do país foi descoberto. A partir daí o país, erroneamente conhecido somente pelo futebol, carnaval e festas, passou a entender que havia chegado a um novo estágio da sua história: o seu povo não corroborava mais com a ideia de voltar aos patamares de subdesenvolvimento, altos índices de inflação e altas taxas de desemprego que existiam nos anos setenta e oitenta. O povo brasileiro foi às ruas aos milhões para dizer: chega, basta, a festa deve acabar!

Segundo o renomado professor de Economia Política da Universidade de Harvard, Dani Rodrik, o Brasil é o país mais subestimado do mundo no momento. Rodrik citou que "Quando você olha para o que está acontecendo, por um lado é chocante que haja uma corrupção tão generalizada na Petrobras e que parece ter chegado até lá em cima. Por outro lado, quando você olha como eles lidaram com a situação, é incrivelmente impressionante. É algo que mesmo em um país avançado você não imaginaria acontecer: todos esses promotores e juízes de fato estão seguindo o Estado de Direito".

Há fortíssimos indícios de que o esquema de corrupção que está sendo investigado seja o maior já descoberto na história, no mundo. Fala-se em R$ 100 bilhões (30 bilhões de dólares aproximadamente). O que dá esperança ao povo neste momento é que o método investigativo, utilizado pela Polícia Federal, é semelhante ao que desarticulou a máfia italiana no final do século passado. Vários empresários e políticos já foram presos e outros estão sendo julgados. Mais de cem deputados e senadores estão sendo investigados, além de treze ministros do governo federal e a própria família do ex-presidente. Isso era impensável no Brasil anos atrás.

A atual presidente luta politicamente para não sofrer um Impeachment (probabilidade de 40%) e o presidente da Câmara Federal luta para não ser destituído do cargo por desvio de recursos. Reformas precisarão ser feitas e gastos deverão ser cortados. Há uma lição de casa gigantesca para ser feita, muito trabalho de limpeza e mudança de cultura. O país parece estar mudando, e acredita-se que para bem melhor. Quem apostar no Brasil provavelmente não se arrependerá!

Analistas estimam que o país tenha dificuldades nos próximos cinco anos, depois disso voltará aos níveis encontrados em 2013. O momento é de intensa ruptura. Se as festas Natalinas forem pensadas como uma simples data na qual as pessoas trocam presentes, será um péssimo momento. As previsões são de queda nas vendas de produtos na ordem de 30/40%, similares às vendas do início do ano até agora. Parte da população está endividada e outra parte está com receio de gastar dinheiro devido ao risco de desemprego, já na ordem de 8,7%. Mas se o real significado do Natal for o nascimento de uma nova era, da prosperidade e da renovação da esperança, os brasileiros terão o melhor Natal já visto e provavelmente os melhores anos depois de passada a crise. E que os corruptos sejam sentenciados e presos. Vamos ao trabalho e continuem investindo no Brasil, valerá a pena!

sábado, 24 de outubro de 2015

/´fidbæk/: Já fez ou recebeu o seu hoje?


Foto retirada do site: http://www.keepcalm-o-matic.co.uk


Por Eduardo Müller Saboia, M. Sc.

Nada me surpreende mais em uma empresa que escutar de grande parte de seus colaboradores: “-Eu não recebo feedback! ” Ou ainda: “-Eu não sei o que meu gestor pensa sobre mim e sobre o meu trabalho! ” Triste época na qual as pessoas não têm liberdade, vontade ou tempo de dizer àquelas, que compartilham duzentos e quarenta e seis dias do ano, o que pensam e o que esperam delas. Se não fosse triste e imprudente, poderia servir de inspiração para mais obras do comediante Charlie Chaplin, nos moldes do premiado “Tempos Modernos” - se estivesse vivo, é claro.

Não sou especialista em feedback. Não conheço todos os termos que podem ser utilizados e os que não podem mais, por não serem politicamente corretos. Mas sei que pessoas precisam de incentivos, precisam ter certeza de que fazem parte do time e que estão no lugar certo fazendo as coisas certas, ou que estão no lugar certo fazendo coisas erradas. Ainda, em situação mais grave, que não estão no lugar certo. E pela minha experiência nestes quase vinte anos de trabalho, o feedback corretivo é um dos gatilhos mais importantes na vida profissional de uma pessoa. Quem não tem a possibilidade de ser corrigido, não tem a possibilidade de evoluir.

Minha sogra, que é exímia estudante da Doutrina Espírita e ser humano de qualidades notáveis, costuma dizer que “todo ser humano é carente por natureza” “Quem não gosta de atenção e apreço? ” Alguns precisam e adoram que pessoas “mais influentes” lhes dediquem minutos de atenção. Muitos gostam e por isso que faz questão de viver em sociedade.

Por que então este importante processo não é prioritário dentro das empresas? Por que se leva, por vezes, um ano para dizer às pessoas que ajudam a construir os resultados como elas estão se comportando e se vão bem ou não? Os resultados, na era da informação e do conhecimento, podem esperar por um ano para terem as trajetórias corrigidas? Penso que não.

Arrisco dizer, por eliminação, que a grande maioria não se sente à vontade para dizer ao outro o que pensa. Mas quantas tarefas não são aprazíveis de serem feitas e temos a obrigação de completar todos os dias? Esta não pode ficar de lado, não pode ser postergada e nem removida das agendas. Feedback não dados, são oportunidades de crescimento jogadas ao vento.

Como escreve Mark Taiwan, humorista norte-americano: “Posso sobreviver dois meses com um elogio. ” Que humor mais sério o dele, não acham? Isto é o feedback positivo.

Também é preciso estar aberto para escutar coisas que talvez não sejam agradáveis. Shakespeare dizia “poucos gostam de ouvir falar das faltas que com prazer praticam”. Lamentável quem não tem alguém que o alerte com um feedback corretivo, no momento em que deve ser dado.

O que vale mesmo é entender, como cita Manuel de Barros, que “a riqueza do homem está em sua incompletude. ”

Divirta-se dando e recebendo os tão desejados/´fidbæk/.

Fica a reflexão!

sábado, 17 de outubro de 2015

“Papai, você é o MEU GIGAAANTE!”


Confesso que escutar isso de um filho, em época de agenda mais que tumultuada, é emocionante, gratificante e revigorante. Como tenho somente um metro e setenta e seis centímetros de altura, o motivo deve ser outro. Estou acima do peso, mas estaria mais para o grande que para o gigante. Consigo sentir a extensão do amor que temos um pelo outro e me dá a certeza de que não estou deixando para trás os momentos mais importantes da relação pai e filho: os primeiros anos dele, fundamentais para a formação do caráter, da ética e da personalidade que amadurecerá com o passar dos anos. Meu filho: agradeço por me emocionar a cada vez que me chama de MEU GIGAAANTE! É o maior reconhecimento que eu poderia ter!

E por que escrever sobre a relação entre pai e filho em um ambiente destinado aos negócios? Profissionais, de todos os ramos, estão cada vez mais envolvidos com seus afazeres, suas agendas, suas reuniões e negociações. Conectados, senão vinte e quatro horas por dia, boa parte delas. Celulares, notebooks, e-mails, chats corporativos, Whatsapp, Facebook e mais. Ligações a qualquer hora do dia e da noite. Difícil, muito difícil manter o equilíbrio entre família, trabalho, amigos, lazer, blogs e aprimoramento profissional. Difícil mas necessário.
Por vezes, consciente ou inconscientemente, tomam-se decisões ao focar uma ou mais atividades, dando-se importância maior para o trabalho, para o lazer, para a família ou para qualquer outra coisa que enobreça. Em determinadas épocas, não se consegue fazer tudo com a mesma intensidade, com a mesma dedicação merecida. Tem-se que optar. E como a consciência cobra, castiga e pesa quando se deixa para trás alguma coisa.

Shakespeare escreve que “o tempo é algo que não volta atrás. Por isso plante seu jardim e decore sua alma, ao invés de esperar que alguém lhe traga flores...”. Faço o possível para estar ao lado da minha família e do meu filho, por mais difícil que seja, pois se tem a sensação de que o tempo está cada vez passando mais rápido. Não deixo de ser um profissional muito dedicado e apresentar bons resultados agindo desta maneira. Muito pelo contrário, boa parte do que consigo mostrar para a organização é fruto da tranquilidade e suporte que tenho em casa. Neste mês meu filho faz três anos, ontem, nascia. Anteontem, minha esposa repousava por trinta e sete semanas e quatro dias para segurá-lo e mantê-lo com vida.

A vida me brinda com palavras e gestos cada vez mais carinhosos. Mais do que pai e filho, somos amigos e cumplices. E nada na vida me completa mais que a minha família. Trabalho arduamente e procuro, na medida do possível, me dedicar ao esporte e aos amigos que tanto gosto. Neste último ano, com tantos projetos e mudanças, o menor foco ficou para o esporte, que será retomado em breve.
Por isso, procure equilibrar seus afazeres e não deixe também de dedicar seu tempo, precioso, a quem realmente se importa com você! O tempo não voltará! Aproveito para agradecer aos meus pais, que sempre foram MEUS GIGANTES em épocas de 5500% de inflação ao ano!

E, ao passear de bicicleta com seu filho, não se esqueça dos equipamentos de segurança e de dar boas risadas, cantando canções que ele gosta! Dance a “Mickey Dança” com ele e divirta-se! Quem é pai, entenderá o que estou escrevendo! Para estar nas lembranças de seus filhos amanhã, faça parte da vida deles hoje! E quando chegar a casa todos os dias à noite, diga a ele: “Senti saudade. Sem ti, saudade.”.

Para finalizar, cito uma frase que recebi nesta semana pelo Facebook: “As pessoas foram criadas para serem amadas e as coisas foram feitas para serem usadas. A razão pela qual o mundo está um caos é porque as coisas estão sendo amadas e as pessoas estão sendo usadas.”.
Fica a reflexão!